quinta-feira, 4 de outubro de 2012

E o metrônomo venceu!



Sabe que sempre fui de ouvir em uma música muito mais o instrumental, as linhas melódicas do que a letra que houvesse? Sempre fui mais de prestar atenção nos ritmos, nas harmonias, nos timbres, nuances, e... ah sim... na letra também... Mas o que tenho visto de falta de criatividade em todos esses aspectos, uma mesmice tão, mas tão incrustada e banal que realmente só me deixa com vontade de bocejar... Bom, não é a toa que se diz que pra ser músico hoje em dia basta aprender uns poucos acordes em um violão e tu já tira a maioria das músicas “povescas”, sim... é isso mesmo que tu ouviu, música “povesca”, porque eu estaria ofendendo grandes mentes criativas dizendo que o que tu ouve quando sai na rua hoje em dia é música popular... Muito da música hoje em dia ficou (e somente ficou) com fim de arrecadar dinheiro, e pra isso basta fazer o que o povo quer ouvir. Bom, mas esses assuntos ficam pra outro post, o que eu gostaria de começar comentando aqui é sobre o aspecto do pulso de muito da música feita hoje em dia, literalmente: como ela pulsa. Sou um músico violoncelista que na maior parte do tempo toca música de concerto escrita para o meu instrumento principalmente abrangendo um repertório que vai da primeira metade do século XX para trás (séculos), e quando é alguma coisa mais recente, normalmente, são compositores contemporâneos que escrevem música de concerto. Nesses gêneros de composição onde é o maior foco na minha formação, o metrônomo (aparelho que marca as batidas do compasso da música, ou seja, o pulso da composição) é um acessório que se usa para nos dar a referência de andamento se é mais movido ou mais lento e também é usado como referência de pulso durante o estudo de uma peça musical aonde se objetiva uma melhor clareza e disciplina sobre a organização rítmica da peça. Após ser usado para esses fins, após ter-se atingido os objetivos de estudo, o metrônomo então é desligado e a partir daí passa-se a fazer a música com o seu pulso referenciado no senso rítmico humano já treinado A PARTIR do metrônomo, e não COMO um metrônomo, e aí então a música deixa de ser metronômica e passa a ser “humana”, ela aí ganha a vida, torna-se um organismo vivo que respira, tem sustos e recomposições de sustos, tem o relaxamento, a agitação, o cansaço após a agitação, tem o respeito a uma voz que quer se expressar e a logo resposta a essa expressão segundo a natureza circunstancial de momento, como um corpo que de repente sofre uma lesão e uma boca que por reflexo responde com um grito de dor. A música assim se torna coerente com ela mesma, coerente com o que ela própria quer passar, e tudo isso por fim faz ela torna-se interessante! Mas e o que teria acontecido muito na performance da música hoje em dia? Tenho a impressão que ela justamente se tornou muito mais metronômica e menos humana... Talvez com a ascensão da gravação e uma maior exigência de segurança e impecabilidade na performance para se gravar (considerando que a gravação é uma performance “eternalizada” digamos), o metrônomo tenha sido uma peça alçada à condição de referência única e diria até mesmo autoritária para um grupo de músicos (até para um músico sozinho) acertar o pulso, objetivando uma maior facilidade de obter um desempenho impecável com economia de tempo... De repente todos os músicos, cada um com o pulso do metrônomo no ponto de ouvido, combinam entre si: “sigam o metrônomo que não haverá erro”. De repente a formação dos bateristas é tocar como um metrônomo por excelência e o dever do resto do grupo é ouvi-lo pois ele é a lei, e nada mais importa... De repente qualquer padrão rítmico constante que um músico tenha deve ser tocado metronomicamente, assim como é dever dos outros ouvi-lo e segui-lo independente do que tenham em suas linhas melódicas... O problema nisso tudo é que na ânsia em se obter um desempenho metronômico impecável, matou-se justamente a “humanidade” na música... E o metrônomo venceu! Isso eu já notei tocando ao lado de músicos em que tinham uma preocupação tão grande em manter o pulso metronômico que acabavam por ficar “cegos” ao resto do que acontecia, e assim atropelavam solos, atrasavam, afobavam... Simplesmente tornavam-se desconectados do resto do grupo ansiando e “quebrando” a todos. Foi aí que me dei conta disso, que o respeito a todos os colegas musicalmente falando, o “dependizar-se”, esse pacto grupal para que no fim se chegue a um resultado de um todo e não de um só ou de diferentes, é por si só uma humildade e respeito à música. Ao meu ver, um pulso “humanizado” é de grande interesse, prefiro música que respira, música viva, pois é com isso que eu me identifico sendo o que sou, um ser vivo orgânico, não mecânico... E isso não vale somente para o pulso, para a questão de metrônomo, mas também para todos os outros aspectos. Em um ensemble os músicos devem ser independentes na autoridade de si mesmos para saberem cada um o que fazer com o seu instrumento e parte, mas completamente dependentes um do outro no intuito de se almejar um resultado que só tem sentido pela conexão pactuada do grupo, e não de desconexos que resolveram se juntar e atirar na sorte pra ver se lá na frente vai dar tudo certo quando todos começarem a tocar “surdamente”, cada um na sua própria e digna razão. Uma música composta para um quarteto de cordas é resultado do quarteto inteiro interdependente, e não mais do primeiro violinista que tem o segundo violinista como um “quebra-galho”, o cello como uma base sem muita importância e a viola só como o “recheio do bolo”... E se os músicos não tem consciência disso, nunca conseguirão se quer tocar juntos, mesmo seguindo certinho feito “cavalo de leiteiro” o que está na parte. Assim também uma música composta para uma orquestra é resultado de uma orquestra inteira..., uma vez vi um colega na orquestra em que trabalho dizer a todos os outros colegas: “infelizmente tocamos mal aquela tal obra” e logo ser replicado por um outro colega que se sentiu ofendido com a afirmação: “tocamos mal vírgula! Tu podes ter tocado mal, mas eu toquei bem!”. Vendo essa cena penso eu: mas vem cá, de que adianta uma pessoa tocar bem e o resto do grupo não? O resultado é pífio, pois a música foi composta pra soar pelo grupo e não por uma pessoa... Mesmo que um Itzhak Perlman (prestigiado violinista) esteja tocando na fila de uma orquestra que não tenha sido muito feliz na performance de determinada música, não seria ele que iria trazer uma opinião favorável para a performance, não é mesmo? (apesar de eu ter certeza que tem gente que pensa diferente disso), talvez isso dependa também do “o quê nos dispomos a assistir em um concerto”... Eu confesso que se me apresentassem um programa dizendo que a orquestra tal iria se apresentar em um teatro tal e visse que o Perlman por o acaso está lá no meio dos violinos, teria a tendência a ir assistir o concerto, não para olhar o Perlman tocando, mas sim a orquestra em que o Perlman está lá no meio, afinal, foi essa a proposta que me apresentaram, essa é a proposta do programa em si, e (que Nietzsche não me ouça) hoje eu já sei que isso é bem coisa típica de alemão essa espécie de “inocência do espírito” em busca do constante surpreender-se, e mesmo assim digo: como me surpreendo! Como a vida pode ser colorida! Assim como também teria certeza que iria ver gente indignada exclamando: “droga!! Fui lá ver o Perlman e não consegui ouvir se quer uma nota dele lá no meio daquele monte de gente!”..., mas ouvir justamente o monte de gente, o todo, que era a proposta em si, a criatura nem se quer se deu o trabalho... Isso eu poderia chamar de uma “cegueira”... (curiosamente não sei bem ao certo o porquê, vejo muito esse tipo de comportamento nas “patricinhas”, mas isso é assunto pra outras campereadas), enfim, ando lendo a obra de Nietzsche e não duvido que isso ele chamaria justamente de sabedoria essa maneira de levar a vida, sim, não neguemos que é uma maneira mais apaixonada e por vezes sinto falta em mim dessa leveza de espírito e “direteza” das coisas... O meu “alemoismo” sempre fica querendo ponderar tudo, obter uma visão de cima e buscar alternativas para o óbvio na procura de me surpreender e descobrir... É difícil às vezes... o óbvio era ver a orquestra ou o óbvio era ver o Perlman? Rsrsrs Bom! Mas chega de divagação! Só pra encerrar voltando ao metrônomo que era pra ser o assunto original do post, acredito que se os músicos usufruírem do aparelho para fazer música A PARTIR dele e não COMO ele, aí só então se começa a fazer música viva! Ouvir o ser humano, ouvir o que é vivo e apaixonadamente errante! Não o que é inexorável e morto... E lugar de metrônomo é em casa, não em palco.

                                                                            Philip G. Mayer

Rebaixem esse metrônomo!
  

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