quarta-feira, 3 de outubro de 2012

IMPRESSIONANTE!



Sim... Impressionante é a palavra que uso para tudo isso... Devo confessar que senti um pequeno mal estar na barriga e tive que ir ao banheiro quando terminei a leitura dessa passagem da obra “Hecce Homo” de Friedrich Nietzsche... Acho que nunca havia lido algo antes que me atirasse tantas confirmações de coisas que intuía a respeito de mim e de muito do que havia antes de mim e que eu acabei sendo apenas uma das incontáveis consequências... Nietzsche, um filósofo ALEMÃO, critica justamente a natureza ALEMÃ, a forma germânica de lidar com a vida, sim, ele justamente faz uma CRÍTICA a tudo aquilo em que uma metade do mundo sempre aplaudiu de pé e a outra metade sempre desprezou, a primeira por pressentir que a “maneira alemã” sempre fosse a mais correta, civilizada, competente, religiosa, trabalhadora, humilde, austera, honesta, tolerante e sincera; e a segunda por enxergar em todos esses adjetivos um verdadeiro assassinato da satisfação espiritual e felicidade humana, um aprisionamento da alma, justamente por não acreditar em ideais de um viver virtuoso, mas também ao mesmo tempo não saber argumentar contra essa “sensatez germânica” na maneira de encarar a vida consigo e em sociedade. Impressionante é a palavra que uso acerca dessa crítica... E sabe por quê? Porque a moral germânica, aquela lista de adjetivos que citei antes, tenho a impressão que é o grande anseio do ocidente, também é o grande pilar de sustentação da moral ocidental, como disse o próprio Nietzsche em tom de crítica furiosa: “os germanos são a ordem mundial da decência na história”. Às vezes me vem uma impressão de que o ocidente acha que só atingiria a perfeição se todo mundo fosse alemão... (Talvez Hitler pensasse isso, mas se pensasse, os meios que utilizou para atingir tal “ideal” foram a completa antítese do “ideal”, a aniquilação do semelhante, a monstruosidade). Mas enfim, acho que todo um “bom alemão” deveria ler esse texto de Nietzsche, pelo menos só por ler, é apenas um ataque de uma opinião contrária de suas ideias, que tirem depois suas próprias conclusões... Digo que pra mim foi uma coisa fantástica, precisava ouvir algo do tipo, precisava ouvir algo que de forma convicta e segura de si me esfregasse na cara o meu avesso. Que realmente ameaçasse a minha dignidade, uma dignidade onde por vezes noto um apedrejamento ressentido por parte de muitos e eu nunca entendo o porquê disso... Hoje talvez já saiba compreender melhor tudo isso, sem esquecer tudo o que vida nos dá de bom quando temos um viés mais “alemão” sobre as coisas. Pois bem! Com vocês, da boca do próprio Nietzsche, para a alegria dos que veem com maus olhos o “jeito alemão”, mas não conseguem se expressar: a crítica aos alemães!

                                                                              Philip G. Mayer


ECCE HOMO
Capítulo - O Caso Wagner

2.

Mas aqui nada deve perturbar minha intenção de ser rude e de dizer algumas verdades aos alemães: se não o farei, quem o fará?... Eu falo de sua indecência in historicis. Não apenas que o olhar amplo para o caminho, para os valores da cultura fugiu completamente às mãos dos historiadores alemães, que todos eles são bufões da política (ou da igreja...): esse olhar amplo inclusive foi mandado ao exílio por eles. Primeiro alguém tem de ser "alemão", ter "raça", para aí poder decidir in historicis a respeito de todos os valores e desvalores - a gente os determina... "Alemão" é um argumento, "Alemanha, Alemanha sobre tudo" um princípio, os germanos são a "ordem mundial da decência" na história; em relação ao imperium romanum, os detentores da liberdade, em relação ao século XVIII, os restabelecedores da moral, do "imperativo categórico"... Existe uma historiografia imperial-alemã, existe - eu temo - até mesmo uma historiografia anti-semita - existe uma historiografia cortesã e o senhor von Treitschke não tem a menor vergonha dela... Há pouco tempo um julgamento idiota in historicis,
uma sentença do afortunadamente já saudoso esteticista suábio Vischer, circulou por todos os jornais alemães como se fosse uma "verdade" para a qual todos os alemães tinham de dizer sim: "A renascença e também a reforma, apenas os dois juntos, constituem um inteiro - o renascimento estético e também o renascimento ético."... Em face a tais frases minha paciência chega ao fim e eu sinto vontade, eu sinto até mesmo a obrigação de dizer aos alemães, de uma vez por todas, do que eles são culpados. Todos os crimes culturais de quatro séculos pesam na consciência dos alemães!... E sempre por causa do mesmo motivo, por causa da sua covardia inerente ante a realidade, que é também a covardia ante a verdade, por causa da inverdade que se tornou instintiva neles, por causa do "idealismo"... Os alemães arrancaram da Europa as conquistas e o sentido da última grande época, a época da renascença, num momento em que uma hierarquia mais elevada dos valores, em que os valores nobres, afirmativos em relação à vida, garantidores do futuro, haviam tomado o lugar dos valores contrários a eles, dos valores do ocaso, alcançando a vitória - chegando a penetrar o instinto dos que lá estavam assentados! Lutero, essa fatalidade de monge, restabeleceu a igreja e, o que é mil vezes pior,o cristianismo inteiro, exatamente no instante em que ele havia sucumbido... O cristianismo, essa negação da vontade para a vida feita religião!... Lutero, um monge impossível que, por causa da sua "impossibilidade", atacou a igreja e - consequentemente! - a restabeleceu... Os católicos teriam motivos para fazerem festas em homenagem a Lutero, escreverem poemas em louvor a Lutero - Lutero... e o "renascimento ético"! Para o diabo com toda a psicologia!, é a ordem deles... Sem a menor dúvida, os alemães são idealistas... Os alemães souberam muito bem achar desvios para o velho "ideal", reconciliações entre verdade e "ideal", em última instância fórmulas para um direito à negação da ciência, para um direito à mentira... E por duas vezes, justo quando havia sido alcançada, através de uma bravura monstruosa e de uma superação de si mesmo jamais vista, uma maneira de pensar íntegra, nem um pouco ambígua e completamente científica. Leibniz e Kant - esses dois travões maiores da integridade intelectual da Europa!... Por fim,quando sobre a ponte entre dois séculos de décadence ficou visível uma force majeure de gênio e de vontade,forte o suficiente para fazer da Europa uma unidade, uma unidade política e econômica, capaz de objetivar o governo da terra, os alemães mais uma vez confundiram a Europa com suas "guerras de libertação", acabando com o milagre da existência de Napoleão - e por causa disso eles são culpados de tudo aquilo que veio, que hoje está aí, essa enfermidade e essa irracionalidade anticulturais, o nacionalismo, essa névrose nationale, sob a qual a Europa padece, essa eternalização dos Estadinhos europeus, da política caseira: eles despojaram a Europa de seu próprio sentido, de sua razão - eles a conduziram a um beco sem saída... E por acaso alguém, a não ser eu, sabe um caminho para fugir a esse beco sem saída?... Uma tarefa grande o bastante para voltar a unir os povos?...

3.

- E, por último, por que eu não haveria de dar palavras à minha suspeita? Também no meu caso os alemães voltarão a tentar tudo a fim de fazer com que de um destino colossal nasça um camundongo. Até agora eles estiveram em má situação comigo, duvido que no futuro farão melhor... Ah, quanto não me custa ser um mau profeta nesse caso!... Meus leitores e ouvintes naturais já hoje são russos, escandinavos e franceses - será que eles sempre o serão, será que aumentarão?... Os alemães estão inscritos na história do conhecimento apenas com nomes duvidosos, eles apenas produziram moedeiros falsos “inconscientes” (Fichte, Schelling, Schopenhauer, Hegel, Schleiermacher, todos eles simples “fazedores de véu” como Schleiermacher, assim como Kant e Leibniz): eles jamais devem merecer a honra de ver que o primeiro espírito íntegro na história do espírito, o espírito no qual a verdade sobre a falsificação praticada durante quatro séculos é levada ao tribunal, é relacionada como parte do espírito alemão. O “espírito alemão” é meu ar nefasto: eu respiro com dificuldade in psychologicis quando estou próximo dessa sujeira feita instinto, revelada por qualquer palavra, qualquer careta vinda de um alemão. Eles jamais passaram por um século XVII, de dura autoprovação, como os franceses; um La Rochefocauld, um Descartes são cem vezes superiores ao primeiro dentre os alemães no que diz respeito à integridade – eles até hoje não tiveram nenhum psicólogo. Mas psicologia é quase o parâmetro da pureza ou da impureza de uma raça... E quando não se é nem puro, como é que se poderia alcançar a profundidade? No alemão, quase como na mulher, a gente nunca consegue chegar ao fundamento, ele não tem fundamento: isso é tudo. Mas com isso a gente sequer é superficial... Aquilo que na Alemanha é chamado de "profundo" é justamente essa sujeira instintiva contra si mesmo, da qual eu acabei de falar: ninguém quer ter clareza a respeito de si mesmo. Será que eu não poderia sugerir a palavra "alemão" como moeda internacional para essa deterioração psicológica?... Nesse instante, por exemplo, o kaiser alemão chama de "sua obrigação cristã" a libertação dos escravos na África: entre nós, outros europeus, isso passaria a ser chamado, depois da minha proposta, simplesmente de "alemão"...Os alemães foram capazes de trazer ao mundo um só livro que tivesse profundidade? Até mesmo o conceito para o que é a profundidade de um livro foge a seu alcance. Eu conheci eruditos que consideram Kant profundo; na corte prussiana, temo que se considere o senhor von Treitschke profundo. E se de quando em quando louvo Stendhal como psicólogo profundo, cheguei a encontrar professores universitários alemães que pediram para que eu soletrasse seu nome...

4.

- E por que eu não haveria de ir até o fim? Eu gosto de pôr as coisas em pratos limpos. Inclusive faz parte da minha ambição ser considerado o contemptor dos alemães par excellence. Minha desconfiança contra o caráter alemão eu já a expressei com vinte e seis anos (terceira extemporânea, p. 71) - os alemães são impossíveis para mim. Quando imagino uma espécie de homem que se oponha a todos os meus instintos, acaba sempre surgindo um alemão. A primeira coisa em que "peso o coração" de um homem é no fato de ver se ele tem ou não sensibilidade para a distância no corpo, se ele é capaz de ver posição, grau, ordem entre homem e homem, se ele é capaz de distinguir: com isso, se é um gentilhomme; em todos os outros casos se está, sem a menor salvação, entre os "grandes de coração", oh, esse conceito tão bondoso da canaille - ah, eles são todos tão bondosos... A gente se apequena ao se relacionar com alemães: o alemão igualiza tudo...
Se eu descontar minha relação com alguns artistas, sobretudo com Richard Wagner, eu chegarei à conclusão de que não vivi sequer uma hora boa com alemães... Supondo que o mais profundo dos espíritos, em todos os séculos dos séculos, tivesse surgido entre os alemães... e um salvador do Capitólio qualquer haveria de dizer que sua alma desprovida de beleza também seria pelo menos igualmente tão digna de merecer essa glória... Eu não suporto essa raça, com a qual a gente sempre está em má companhia, que não tem mão para as nuances - ai de mim! eu sou uma nuance —, que não tem
esprit nos pés e nem sequer sabe caminhar... Ao fim das contas os alemães nem tem pés, mas apenas pernas... Os alemães não têm a menor ideia de como eles são vulgares, mas esse é o superlativo da vulgaridade — eles nem sequer se envergonham de ser apenas alemães... Eles sabem falar a respeito de tudo, eles se consideram decisivos e eu temo que já tenham se decidido inclusive a respeito de mim... Minha vida inteira é a prova de rigueur para essas sentenças. E em vão que procuro neles por um sinal de tato, de délicatesse para comigo. De judeus sim, mas jamais de alemães. Meu modo de ser quer que eu seja suave e benfazejo em relação a todo mundo - eu tenho o direito de não fazer diferenças... e isso me atrapalha; o fato de ter os olhos abertos. Eu não faço nenhuma exceção, muito menos a meus amigos - e por fim tenho a esperança de que isso não tenha causado uma ruptura na minha humanidade em relação a eles! Há cinco ou seis coisas às quais eu sempre considerei uma questão de honra... Mesmo assim permanece sendo verdadeiro o fato de que sinto quase todas as cartas que há anos me alcançam como um cinismo: há mais cinismo na benevolência para comigo do que no ódio de qualquer tipo... Eu digo na cara de todos os meus amigos que eles jamais consideraram valer a pena estudar qualquer uma de minhas obras; eu adivinho, a partir do mais ínfimo dos sinais, que eles sequer sabem do que elas tratam. Até mesmo no que diz respeito ao meu Zaratustra, qual dos meus amigos teria visto nele mais do que uma presunção ilícita que por sorte os deixa completamente indiferentes?... Dez anos: e ninguém na Alemanha sentiu peso na consciência pelo fato de não defender meu nome contra o silêncio absurdo em que jaz enterrado: foi um estrangeiro, um dinamarquês, o primeiro a mostrar suficiente perspicácia de instinto e coragem para se indignar contra aqueles que se dizem meus amigos... Em que universidade alemã seriam possíveis seminários acerca da minha filosofia, assim como aquele que o – com isso mais uma vez provado - psicólogo Dr. Georg Brandes deu em Copenhage?... Eu mesmo jamais sofri por causa disso; o necessário não me machuca; amor fati é a minha natureza mais interior. Mas isso não exclui o fato de eu amar a ironia, inclusive a ironia histórico-universal. E assim mandei ao mundo, mais ou menos dois anos antes do raio fulminante da transvaloração, que haverá de pôr o mundo em convulsão, o "caso Wagner": os alemães tinham de ser condenados a se enganar e a se eternizar em mim, para sempre, mais uma vez! ainda há tempo para isso!... E isso foi alcançado? - De um modo encantador, meus senhores germanos! Eu vos faço um cumprimento... Há bem pouco, a fim de que também não faltem os amigos, me escreveu uma velha amiga dizendo que agora ela ri de mim... E isso em um momento em que uma responsabilidade indizível pesa sobre mim - um momento em que cada palavra não pode ser suave o suficiente, cada olhar não pode ser reverente o bastante em relação a mim. Pois eu trago o destino da humanidade sobre os ombros...

                                                                                  Friedrich Nietzsche

Mapa da Alemanha no século XVIII com seus incontáveis estados... Seria a moral uma invenção necessária pra uma possível convivência mais harmoniosa entre os povos? Ou Nietzsche nos revela um caminho melhor?  

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