segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Nietzsche, Schumann e o crepúsculo da moral...


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- Andarilho, quem és tu? Vejo-te seguindo o teu caminho, sem escárnio, sem amor, com olhos inescrutáveis; úmidos e tristes como uma sonda que insaciada volta novamente à luz saída de toda profundidade – o que procurava lá embaixo? -, com um peito que não suspira, com um lábio que oculta seu asco, com uma mão que segura apenas lentamente: quem és tu? Que fizeste? Descansa aqui: este lugar é hospitaleiro para todo mundo – descansa! E quem quer que sejas: que te agradaria agora? Que te serviria de alívio? Apenas diz: o que eu tenho, te ofereço! – “De alívio? De alívio? Ah, seu curioso, que falas aí! Mas dá-me, peço –” O que? O que? Fala duma vez! – “Uma máscara mais! Uma segunda máscara!”....

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Mas o que te aconteceu? — “Eu não sei”, disse ele hesitante; “talvez as harpias tenham voado sobre a minha mesa”. — Acontece agora, talvez, que um homem cheio de moderação e cuidado seja tomado repentinamente de loucura furiosa, a ponto de quebrar os pratos, virar a mesa, de gritar e provocar escândalos, de injuriar todo mundo, de se retirar finalmente em um canto, envergonhado, furioso consigo mesmo, num canto para quê? Para morrer famélico? Para ser sufocado pela memória? — Quem sente os desejos de uma alma elevada é escrupuloso no escolher e geralmente encontra preparada sua mesa, preparado o alimento de que tem necessidade, correrá em todos os tempos um grande perigo; mas atualmente o perigo é maior que nunca. Ver-se envolvido numa época oca e plebéia, com a qual não pode repartir alimento, é muito provável que morra de fome ou de sede, e quando — raridade — tenha a coragem de compartilhar — possa parecer de nojo súbito. Todos nós provavelmente fomos seduzidos por mesas que não se destinavam a nós — e precisamente os mais espirituais entre nós, que são os mais difíceis de alimentar, conhecem muito bem aquela "dispepsia" perigosa que surge de uma conscientização repentina da má qualidade da ceva e da companhia que nos circunda — a náusea au dessert.
                         
                                                                        F. Nietzsche (Para Além do Bem e do Mal)



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