terça-feira, 30 de outubro de 2012

Nona Sinfonia de Beethoven: Primeiro Movimento – Angústia em Música!



O mais puro conflito de uma alma humana, a batalha entre moral e natureza, o mais aterrador tormento de um homem culpado pela sua consciência racional e ao mesmo tempo com sua própria natureza o forçando para agir novamente em direção à desaprovação, à culpa! O ciclo mórbido sentido nas profundezas subterrâneas da consciência humana onde as forças incontroláveis da natureza que querem libertar-se são repetidamente comprimidas para dentro da culpa e sempre novamente arremessadas para fora em série de explosões, tudo isso refletindo a desesperada angústia do homem em livrar-se de tamanho tormento psicológico! Esse primeiro movimento da nona sinfonia de Beethoven (juntamente com o quarteto Op. 133 “A Grande Fuga”) para mim é a própria descrição do descompasso cognitivo, o tormento da mente que o compositor surdo devia sofrer minuto por minuto inquieto dentro de si, a fatalidade da sua natureza em desacordo com a sua época, ou talvez olhando mais além, o descompasso em que a própria Europa vinha caminhando já cansada de suas guerras, de seus sofrimentos, e ainda assim sem conseguir vislumbrar um futuro mais harmonioso entre seus povos... No famoso quarto e último movimento da sinfonia tem-se a ode à alegria, o grande hino de esperança sobre a humanidade, mas para que isso ressoasse com a devida glória, nada mal que Ludwig abrisse a sua nona com a mais perfeita descrição em música do desespero humano!

                                                                                Philip G. Mayer



Um comentário:

  1. Excelente interpretação do primeiro movimento.

    Ao escutá-lo sempre tive a sensação de duas forças imperativas em conflito.

    Sinto também um ar de mistério, de incerteza...

    Gosto de pensar a 9º de Beethoven como um processo de amadurecimento.

    Primeiro o conflito de uma doutrina costumeira, artificial, temporal, que acaba entrando em choque com a "verdade universal" (bem retratada na Ode e que evidencia a igualdade dos seres).

    Após, a consciência da fragilidade da doutrina primitiva do autor. A sensação de vazio, de incerteza, de ignorância. Aí o tema de penumbra, sombrio, que percebo na Sinfonia.

    Por conseguinte, o gradual absorvimento da aludida "verdade", a qual vai ficando cada vez mais enfática, imperativa, e sem ser obstada por posições dissonantes.

    Ao final, a sua declaração clara, lúcida, muito exaltada, tendo-se um inevitável anseio de se "divulgá-la" aos seus iguais.

    ResponderExcluir