domingo, 7 de outubro de 2012

Sinfonia n. 9 “A Grande” de F. Schubert: II - andante con moto




Durante os séculos XVI, XVII, XVIII e XIX a região na Europa onde atualmente encontram-se a Alemanha e a Áustria era formada por nada menos que centenas de micro regiões administrativas (“países”) governadas por duques, condes, eleitores, margraves e outras denominações de nobreza, cada qual com sua soberania em múltiplos aspectos. Essa diversidade de regiões independentes com inúmeras particularidades (culturais-patriotas) acumulava tensão, e por vezes havia guerras por motivos diversos como religiosos e tentativas de se obter maior área territorial. A meu ver parece que essas tensões acabavam por gerar na população uma forçosa necessidade de se estabelecer morais e regramentos com relação à vida para uma “até o tanto possível” convivência pacífica e harmoniosa em sociedade. Talvez nesses quatro séculos de fato, tenha-se construído essa “contenção do espírito”, essa ponderação germânica para as coisas, essa necessidade de olhar e novamente reolhar a realidade (que Nietzsche depois passou a criticar), essa “tolerância extremamente regrada” para tudo na vida com uma profunda devoção e esperança religiosas por um mundo melhor... Pois bem, nesse mundo altamente militarizado e moralizado, onde a ponderação das paixões e o respeito ao espaço alheio é de tamanha força unanime e acertada entre a população que até o “alegrar-se” é expresso em tom baixo por dentre as moradias, nesse mundo viveu o compositor Franz Schubert (1797 – 1828). E o que poderia ser melhor para expressar, descrever em música, justamente toda essa aura, todo esse mundo regrado e dividido? Como um mundo bélico, tenso e “na linha”, mas que guarda em um inconsciente uma profunda, diria desesperada, necessidade e esperança em libertar-se, de virar um só, de abraçar-se e diluir-se novamente, de ser como pó atirado ao ar e reentregue de volta à natureza a fim de abranger novamente o todo e o tudo, visto que parece essa necessária moral para a vida em sociedade não estar sendo feliz frente a tanta iminência de guerra, como poderia ser fruído isso em música?

O segundo movimento “andante con moto” da sinfonia n. 9 conhecida como “A Grande” de F. Schubert, para mim expressa, literalmente descreve, todos esses elementos dramáticos desse mundo germânico presente na época do compositor, o movimento no fundo, lá no fundo é um grande lamento... Começa piano (pouca intensidade de som), categórico, metódico e austero, falando “baixo” pois ouvidos alheios estão por perto e podem ouvir... a iminência de guerra já é uma tensão no ar tão comum que já faz parte da vida, inclusive nos momentos agradáveis do dia a dia, até que ela vem, e quando vem, pega a todos de surpresa e sem piedade... mas tentemos novamente reestabelecer a ordem... mas além de tudo isso..., além de tudo isso... que ânsia por um mundo melhor, por um mundo transcendente, mais amoroso... mais irmão... mais feliz...

                                                                         Philip G. Mayer


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