sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Assim Falava Zaratustra – Do espírito do Pesadume


II

“Aquele que um dia ensinar os homens a voar, destruirá todas as fronteiras; fará saltar pelos ares todas as fronteiras e dará à terra um novo nome, chama-la-á a “leve”.

O avestruz corre mais veloz que o mais veloz corcel: mas também enterra ainda pesadamente a cabeça na pesada terra; assim também o homem que ainda não sabe voar.

A terra e a vida parecem-lhe pesadas, e é o que quer o espírito do Pesadume! Mas aquele que desejar ser leve como um pássaro deve amar-se a si mesmo: é o que eu ensino; não do amor dos doentios e febris – porque nestes até o amor-próprio cheira mal.

É preciso aprender a amar-se a si próprio, é a minha doutrina, com um amor íntegro e são, a fim de aprender a ficar-se em si mesmo, em vez de vagabundear em todos os sentidos.

Tal vagabundear chama-se ‘amor ao próximo’, e não há expressão que tenha servido mais para cobrir de mentiras e hipocrisias, do que esta, sobretudo por parte daqueles a quem todo o mundo tolera dificilmente.

E não é um mandamento para hoje nem para amanhã este de aprender a amar-se a si mesmo. É, pelo contrário, a mais sutil, a mais astuta, a última e a mais paciente de todas as artes.

O que possuímos está-nos sempre oculto; e de todos os tesouros o que mais tarde se descobre é o que nos pertence em propriedade: assim o quis o espírito do Pesadume.

É quase no berço que nos dotam de pesadas palavras, e pesados valores chamados ‘bem’ e ‘mal’ – pois tal é o nome desse patrimônio. – Ao preço desses valores, desculpam-nos viver.

E se os homens deixam aproximar de si as crianças é para impedi-las a tempo de se amarem a si próprias: tal é a obra do espírito do Pesadume.

E nós... arrastamos fielmente aquilo com que nos carregam, sobre duros ombros e por áridos montes! – Se suamos, dizem-nos: “É verdade: a vida é uma carga pesada!”

A única coisa pesada, porém, para o homem levar, é o próprio homem! É que arrasta aos ombros demasiadas coisas estranhas. Como o camelo, ajoelha-se e deixa-se carregar bem.

Principalmente o homem forte e resistente, cheio de veneração; esse carrega aos ombros demasiadas palavras e pesados valores que lhe são estranhos – e a vida parece-lhe então um deserto.

E na realidade, muitas coisas que nos são próprias são também pesadas de levar!

E o interior do homem parece-se muito com a ostra: repelente, viscosa e difícil de apanhar, de tal forma que uma nobre concha de nobres adornos se vê obrigada a interceder em seu favor.

Mas também se deve aprender essa arte, quero dizer: a arte de fazer-se casca, de ter uma bela aparência e uma sábia cegueira.

E ademais nos enganamos muito acerca do homem, por haver muita casca pobre e triste, de excessiva grossura. Há muita força e bondade ocultas que jamais se adivinharam: os manjares mais esquisitos não encontram afeiçoados.

As mulheres o sabem, pelo menos as mais delicadas: um pouco mais, um pouco menos de carnes, ó quanto destino em tão pouca coisa!

O homem é difícil de descobrir, sobretudo quando se trata de descobrir a si mesmo. O espírito mente muitas vezes a respeito da alma.

Eis a obra do espírito do Pesadume.

Mas aquele que sonha descobrir a si mesmo, proclama: ‘Este é o meu bem e o meu mal’. De um golpe fechou a boca a esse míope, a esse anão que diz: ‘Bem para todos, mal para todos’.

Em verdade, também me não agradam aqueles para quem todas as coisas são boas, e que chamam a este mundo o melhor dos mundos.

Chamo-lhes omnissatisfeitos.

A felicidade de gostar de tudo não é o melhor dos gostos. Louvo as línguas delicadas e os estômagos escrupulosos que aprenderam a dizer: Eu, sim e não.

Mastigar e digerir tudo, porém... é bom para os suínos.

Dizer sempre sim, isso só para os asnos e os da sua espécie.

O que o meu gosto deseja é o amarelo intenso e o vermelho quente – mistura de sangue com todas as cores. – Mas aquele que caia a casa de branco revela ter uma alma caiada de branco.

Uns, enamorados de múmias; outros, de fantasmas, e todos igualmente inimigos da carne e do sangue: como me repugnam todos!

Eu gosto é do sangue. Eu não quero estar nos lugares em que qualquer um anda e cospe: este é o meu gosto. Prefiro viver entre perjuros e ladrões. Ninguém tem ouro na boca.

Repugnam-me ainda mais os engolidores de saliva; e ao animal mais repugnante que tenho visto entre os homens, chamei-o parasita: aquele que não quer amar e quer viver do amor que lhe devotem.

Desgraçados são para mim todos aqueles que só podem escolher entre duas coisas: tornarem-se animais ferozes ou ferozes domadores de animais. Não erguerei a minha tenda ao seu lado.

Desgraçados são para mim também os que têm de estar sempre à espera. Repugnam-me esses guardas aduaneiros, merceeiros, reis e guardiães de países e de lojas!

Eu também aprendi profundamente a esperar, mas a esperar-me a mim. E aprendi sobretudo a ter-me de pé, a andar, a correr, a saltar, a trepar e a bailar.

Esta é a minha doutrina: quem quer aprender a voar um dia, deve desde já aprender a manter-se de pé, a andar, a correr, a saltar, a trepar e a bailar: não se aprende a voar ao primeiro alçar das asas!

Com escadas de corda aprendi a escalar mais de uma janela; com pernas ágeis trepei a elevados mastros. Não me parecia pequena ventura encontrar-me no cimo dos altos mastros do conhecimento, oscilando como um fanal: uma luzinha apenas, mas como um grande consolo para as embarcações encalhadas e para os náufragos.

Cheguei à minha verdade por muitos caminhos e de muitas maneiras; usei mais de uma escada para alcançar a altura de onde os meus olhos olham os longínquos espaços.

Foi sempre contrariado que perguntei pelo caminho. – Sempre me repugnou fazê-lo. Sempre preferi interrogar os próprios caminhos e experimentá-los.

Experimentar e interrogar: é a minha maneira de avançar, e, na verdade, é preciso aprender a responder a semelhantes perguntas.

Eis o meu gosto: não é um gosto bom nem mau; mas é o meu gosto, e não tenho que o ocultar nem dele me envergonhar.

‘Este é agora o meu caminho: onde está o vosso’. Era o que eu respondia aos que me perguntavam ‘o caminho. Que o ‘caminho’, na verdade... o caminho não existe”.

Assim falava Zaratustra.

                

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