quinta-feira, 25 de abril de 2013

O Idealismo como Doença da Cultura


- Alguém quer descer o olhar sobre o segredo de como se fabricam ideais na terra? Quem tem a coragem para isso?... Muito bem! Aqui se abre a vista a essa negra oficina. Espere ainda um instante, senhor Curioso e Temerário: seu olho deve primeiro se acostumar a essa luz falsa e cambiante... Certo! Basta! Fale agora! Que sucede ali embaixo? Diga o que vê, homem da curiosidade perigosa – agora sou eu quem escuta. –

- “Eu nada vejo, mas por isso ouço muito bem. É um cochichar e sussurrar cauteloso, sonso, manso, vindo de todos os cantos e quinas. Parece-me que mentem; uma suavidade visguenta escorre de cada som. A fraqueza é mentirosamente mudada em mérito, não há dúvida – é como você disse” –

- Prossiga!

- “e a impotência que não acerta contas é mudada em ‘bondade’; a baixeza medrosa em ‘humildade’; a submissão àqueles que se odeia em ‘obediência’ (há alguém que dizem impor esta submissão – chamam-no Deus). O que há de inofensivo no fraco, a própria covardia na qual é pródigo, seu aguardar-na-porta, seu inevitável ter-de-esperar, recebe aqui o bom nome de ‘paciência’, chama-se também a virtude; o não-poder-vingar-se chama-se não-querer-vingar-se, talvez mesmo perdão (‘pois eles não sabem o que fazem – somente nós sabemos o que eles fazem!’). Falam também do ‘amor aos inimigos’ – e suam ao falar disso.”

- Prossiga!

- “São miseráveis, não há dúvida, esses falsificadores e cochichadores de cantos, embora se mantenham aquecidos agachando-se apertados – mas eles me dizem que sua miséria é uma eleição e distinção por parte de Deus, que batemos nos cães que mais amamos; talvez essa miséria seja uma preparação, uma prova, um treino, talvez ainda mais – algo que um dia será recompensado e pago com juros enormes, em ouro, não! Em felicidade. A isto chamam de ‘bem-aventurança’, ‘beatitude’.”

- Prossiga!

- “Agora me dão a entender que não apenas são melhores que os poderosos, os senhores da terra cujo escarro têm de lamber (não por temor, de modo algum por temor! E sim porque Deus ordena que seja honrada a autoridade) – que não apenas são melhores, mas também ‘estão melhores’, ou de qualquer modo estarão um dia. Mas basta, basta! Não aguento mais. O ar ruim! O ar ruim! Esta oficina onde se fabricam ideais – minha impressão é de que está fedendo de tanta mentira!”

- Não! Um momento! Você ainda não falou no golpe de mestre desses nigromantes, que produzem leite, brancura e inocência de todo negror – não percebeu a consumada perfeição do seu refinamento, a sua mais ousada, sutil, engenhosa e mendaz estratégia de artista? Preste atenção! Esses animais cheios de ódio e vingança – que fazem justamente do ódio e da vingança? Você ouviu essas palavras? Você suspeitaria, ouvindo apenas as suas palavras, que se encontra entre homens do ressentimento?...

- “compreendo; vou abrir mais uma vez os ouvidos (ah! e fechar o nariz). Somente agora escuto o que eles tanto dizem: ‘Nós, bons – nós somos os justos’ – o que eles pretendem não chamam acerto de contas, mas ‘triunfo da justiça’; o que eles odeiam não é o seu inimigo, não! Eles odeiam a ‘injustiça’, a ‘falta de Deus’; o que eles creem e esperam não é a esperança de vingança, a doce embriaguez da vingança (- ‘mais doce que mel’, já dizia Homero), mas a vitória de Deus, do deus justo sobre os ateus; o que lhes resta para amar na terra não são os seus irmãos no ódio, mas seus ‘irmãos no amor’, como dizem, todos os bons e justos da terra.”

- E como chamam aquilo que lhes serve de consolo por todo o sofrimento da vida? – sua fantasmagoria da bem-aventurança futura antecipada?

- “Quê? Estou ouvindo bem? A isto chamam de ‘Juízo Final’, o advento do seu reino, do ‘Reino de Deus’ – mas por enquanto vivem ‘na fé’, ‘no amor’, ‘na esperança’.”

- Basta! Basta!
                                                       
                                  F. Nietzsche (Genealogia da Moral, uma Polêmica – 1887)    


 Um homem no qual as crianças o olham e choram e os cães o veem e ladram, não pode estar de bem consigo mesmo... Na certa foi tomado de um ímpeto muito forte provindo da sua natureza, mas seus pensamentos são tão idealistas, tão bem esquadrinhados, racionais e convictos, que a todo um instante tem de travar uma guerra contra si próprio: como ele mesmo não pôde acreditar racionalmente na existência de impulsos que vão além da razão, de repente viu a si próprio como um louco no qual identifica um alguém outro dentro de si que lhe é estranho, e não pode de maneira alguma expressar... – é a sua natureza irracional que, incessante, arrebenta aos poucos o muro de pedra que o idealismo construiu ao seu redor – todavia seu preconceito tentará aniquilar essa natureza, ou seja, desejará no fundo o seu próprio fim. O mundo sensível a sua volta torna-se então apenas um reflexo: os cães querem morde-lo, as crianças amaldiçoa-lo, veem-se ameaçados diante de uma presença que já é hostil a si própria, mas ele no fundo quer ser mordido e amaldiçoado! Talvez somente assim a sua cegueira enxergue o engano grotesco que é essa maneira quase instintiva de raciocinar e pensar sobre si e o mundo; e inicie então a construção de uma nova espécie de amor próprio, um gradual abandono dos ideais e reconsideração respeitosa de toda inevitabilidade de si mesmo, o amor soberano ao que se é do concebível ao inconcebível, no lugar de um amor franzino e doentio aos ideais, aqueles que não cessam de dizer: deveria ser assim. 

Quem vê problemas nas coisas, é porque já tem problemas dentro de si, quem vê soluções nas coisas, é porque também já tem problemas dentro de si, quem vê somente o que pode ser sempre cada vez melhor, é porque já pensa em ser sempre cada vez melhor. Pare de antecipar tudo espírito inquieto e amedrontado, frua a beleza de um mundo que está em um constante vir a ser, livre de qualquer ideal pressuposto e estagnado. O futuro é insondável, o mundo já é perfeito, e a perfeição é inconcebível!

Deixo aos leitores a audição do primeiro movimento da quinta sinfonia de G. Mahler, uma marcha fúnebre. Para mim, a marcha fúnebre do idealismo, o idealismo doentio que se faz ouvir pela voz do trompete o seu último canto lamentoso sobre a terra, e por fim deixa um silêncio perturbador dentro dos homens, um espaço vazio: não há mais para onde se olhar, se não para dentro de si, e somente de dentro de si fazer nascer finalmente o homem inteiro, um homem feliz.                                                                             
                                                                                       
                                                                                   Philip G. Mayer



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