quarta-feira, 15 de maio de 2013

Ao Homem Cuco


Na Encruzilhada - Que vergonha! Vocês querem entrar num sistema em que é necessário ser uma engrenagem, plena e totalmente, sob pena de ser esmagado por essa engrenagem! Disso decorre evidentemente que cada um é o que seus superiores fazem dele! Onde a caça às “relações” faz parte dos deveres naturais! Onde ninguém se sente ofendido quando o tornam atencioso para com alguém, observando que “pode lhe ser útil”! Onde ninguém tem vergonha de fazer uma visita para solicitar a intercessão de alguém! Onde ninguém suspeita sequer que, por uma subordinação tão intencional a semelhantes costumes, se classifica, de uma vez por todas, entre as vis vasilhas da natureza que os outros podem utilizar e quebrar à vontade, sem experimentar com isso um grave sentimento de responsabilidade, como se se quisesse dizer: “Gente de minha espécie nunca haverá de faltar: sirvam-se, portanto, de mim, sem cerimônia!”
                                                                             
F. Nietzsche (Aurora – 1881)


Esse aforismo de Nietzsche eu dedico a toda uma maneira tipicamente germânica de ver o mundo, maneira essa que se tornou ocidental em geral e doente, a todos os idealistas, austeros, inexoráveis, sempre de prontidão, a todos os cristãos cansados, mas que nunca se dão um direito a render-se ao menos uma vez, sobretudo dedico esse aforismo às típicas naturezas relojoeiras de toda a sorte, naturezas nos quais como impecáveis relógios muito bem ajustados, sempre necessitados de corda todos os dias, fazem seu incessante tic-tac sem parar aqui e acolá desde o raiar do sol até durante a lua cheia, sempre prontos a lhes dar e fornecer a hora mais certa a qualquer momento, e que por crerem na sua excelência como ótimos serviçais da coletividade, julgam-se saciados no dever consigo mesmos... até ao final definitivamente, emperrarem! E há nesse mundo quem os conserte depois de tamanha tragédia (quando irão querer por direito a si mesmos de volta como nunca antes!) se não para torna-los novamente bons reloginhos? Dedico esse aforismo a todos esses, aliás, tudo o que eu era veemente e inconscientemente até ser esmagado por uma engrenagem. Mas e não é que foi preciso o golpe da engrenagem mais pesada para descobrir uma vida possível muito mais livre, leve e feliz? E não é que agora olho para baixo e vejo com tanta clareza um mundo fragilizado e adoecido povoado pelos mais corretos e excelentes relógios em uma sinfonia angustiante de tic-tacs? Homens cucos, insaciáveis e cansados, talvez realmente seja preciso que um dia a engrenagem mais pesada lhes esmague de vez para só assim perceberem que a vida não é feita para dar-se corda todos os dias... Pelo contrário, façam saltar pelos ares todas as engrenagens que lhes oprimem!

                                                                             Philip G. Mayer




                                                                                             



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