domingo, 16 de junho de 2013

Má digestão...


Sentar-se à mesa para comer um alimento mal preparado, que deveria ter cozido mais tempo ao fogo, que deveria ser empurrado para longe a fim de se preservar a própria saúde, ou então mandado de volta para a panela para somente mais tarde apresentar-se melhor a quem deverá digeri-lo... Mas não! Justamente comê-lo! Crendo com isso que tornará o estômago mais forte para receber futuros alimentos estragados, e ter prazer nessa crença! Ora, e não é assim que lidamos com tudo que nos faz sofrer? Não digerimos os sofrimentos, esses alimentos que repugnam ao estômago, sempre em prol de um tanto a mais de força ao invés de repudiá-los ou lhes apontar a panela que deverão voltar? Não estaria justamente nessas duas últimas atitudes a verdadeira força? O respeito à nossa sensibilidade íntima que dita as regras do que nos convêm e não convêm é uma força muito mais poderosa, ou melhor, o escudo muito mais resistente contra a ameaça se comparado a um método de sacrifício que aposta para, se ganhar, tornar-se depois mais forte frente a novas ameaças. Mas e se a aposta perde? Bom, as consequências podem ir de uma leve dor de cabeça até a morte... Porém se a aposta ganha, realmente então adquirimos uma nova técnica. E nos alegramos com isso ao mesmo tempo em que obtemos coragem para seguir em frente, pois se é possível tirar o proveito do sofrimento para tornar-se mais virtuoso na técnica, isso quer dizer que descobriu-se um mundo novo e riquíssimo para ser explorado, mas somente por via do sacrifício, o motivador desse conhecer técnico. Aliás, devemos justamente a essa forma do conhecer todo o entusiasmo e curiosidade científica aflorada no homem, assim como talvez tudo o que hoje costumamos chamar de “desenvolvimento” ou “progresso da civilização”: o aprimoramento na calamidade, o benefício tirado do sofrimento, a ambição pelo sacrifício com vistas a receber a recompensa prometida. Mas se a escolha é pela aposta, então se pode intuir que antes dessa escolha há um temor por ver-se exposto a perigos sempre constantes e insondáveis, e se há esse temor, é porque não se aceitou a natureza como ela é, pois o que é a natureza se não um meio que traz sempre constantes perigos insondáveis? E quem é o culpado, a natureza que é imprevisível ou nós que perdemos a capacidade de nos defendermos? Se perdemos a defesa, nada mal que tenhamos desejado a adaptação, e hoje mais do que nunca glorificamos toda a capacidade de adaptação do homem frente à natureza, isso é o que nos separou definitivamente de todos os outros animais, aliás, nos separou da própria natureza em si: no mundo, o animal se defende, o homem se adapta. Mas será que já não é a hora (mais do que nunca que essa hora envia seus sinais) de começarmos a desconfiar dessa própria capacidade de adaptação? Não deveríamos nos perguntar se tal capacidade no fundo não é uma degeneração, sendo essa consequente da falta do autodomínio, autoconsideração e autorrespeito? Se a ciência como conhecemos tem medo que o homem um dia chegue à extinção, então ela tem medo de um evento inevitável: a prova disso é que os próprios meios de que ela se utiliza para evitar a extinção humana evidentemente no mínimo aceleraram essa própria extinção... 

Lancemos agora o olhar para longe, para muito longe, que esse olhar alcance o tempo mais remoto que ainda está por vir... Olhemos para os confins do futuro e de toda a ambição humana: - E então, o que se vê lá? Aonde chegamos, por fim, com toda a adaptação?... Pois eu não vejo nada se não... morte... Vejo uma carcaça estirada ao relento, morta e cheia de moscas... - Mas e do que ela morreu? - ...pois morreu de si mesma, do próprio cansaço! Definhou no seu temor e ambição em se adaptar! Ela já não vivia mais, tornou-se uma eterna observadora amedrontada da vida, o gênio cientista nunca satisfeito. Não por prazer! Ah meu caro, nisso não nos enganemos: mas por impotência e necessidade! Ou nunca te pareceu que a incapacidade de prezar-se, no qual o impotente com a vingança contida termina por tornar-se desconfiado ao extremo, e justamente por isso mesmo o melhor dissecador, o mais prodigioso homem de ciência, o técnico por excelência? Para esses homens do conhecimento, a técnica é necessária para se defenderem, já que por eles mesmos se tornaram incapazes. Essas naturezas não conseguem mais ver beleza nenhuma nem em si, ...nem em nada, ...aliás, a própria beleza os repugna... Não notastes como por mais que se entusiasmem, em última instância guardam uma terna melancolia sobre tudo?... Buscar verdades por trás do véu da espontaneidade, isso é o seu grande prazer, e nisso acreditam que é em si a própria vida: um sacrifício a mais sempre na incessante busca da “verdade mais profunda”... A sua alegria está nesse conceito, e não no seu sentimento... Eles inverteram tudo: o sentimento julgam superficial, e o conceito julgam profundo, quando justamente do visceral sentimento nasce um estreitado e questionável conceito, e não o contrário! Inverteram tudo e ainda junto estreitaram tudo! O que dizem ser erro é a própria beleza, quando a meticulosidade, justamente essa é a mutação bizarra, talvez um erro da natureza! Que a natureza não se deixe dominar pelo homem, mas que antes ela trate de aniquilar ao próprio homem que lhe quer dominar! Ele, que é apenas parte dela, mas que se julga tão aparte dela...


Vocês, grandes cientistas da vida, ressentidos, melancólicos, inventores de técnicas para comer de tudo! Eu sei que vocês sentem compaixão por aqueles que ainda têm de comer alimentos estragados sem a técnica, mas eu também sei que vocês nutrem secretamente um ódio mortal por aqueles que não comem tais alimentos, mas os empurram de uma vez para longe! Sei que cheios de asco aguardam pelo menor tropeço desses felizes que sabem selecionar o bom alimento para si, e só aí que então movidos pela inveja vocês aproveitam para se vingar! Essa é a miséria de vocês, a única felicidade que lhes resta e que aguardam ansiosamente por uma primeira brecha de oportunidade! Graças a vocês que hoje o mundo anda tão louco, tão anojado de si mesmo, sem nenhuma beleza, tão tenso e cheio de precauções desnecessárias! Vocês pisoteiam qualquer canteiro de flores com um prazer asqueroso, típico de alguém que precisa ser logo internado porque não aguenta mais nem a si próprio! Pergunto, por que não se dão logo um fim a si mesmos? Afinal não é isso que querem em última instância? Ah... Esqueci que pra isso são covardes... Eu sei, querem que alguém dê um fim a vocês, para ao menos não desaparecerem da terra sem terem sido notados, sem terem deixado a marca análoga: algum envergonhado por aqui... Crápulas! 

                                                                                  Philip G. Mayer


“Comer o pão que o diabo amassou”: nada mal para tornar-se o próprio diabo...

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