quarta-feira, 19 de junho de 2013

Sobre as Manifestações do Brasil

Justamente o que eu acho maravilhoso nas manifestações em todo o Brasil: elas não sabem o que querem, mas sabem muito bem o que NÃO querem! E só nisso acredito que nós brasileiros sejamos os pioneiros nesse tipo de reivindicação em todo o mundo: uma manifestação que deixa em aberto a construção de uma nova humanidade que nunca vimos antes, ou talvez da retomada de uma humanidade que perdemos já há muito tempo, nisso nenhuma revolução europeia foi capaz de tamanho esclarecimento! Sabemos agora que o “querer” é sempre mesquinho e parcial, sabemos que os resultados devem vir justamente pelo desenrolar da própria circunstância como for concluída, bem ou mal para muitos, para poucos, para todos o que vier terá sido sabidamente o necessário e natural, sabemos que isso é que nos soa mais saudável, que qualquer tentativa de uma ideia preconcebida já não nos basta, ela sempre vai segregar, queremos mais, queremos tanto mais que não sabemos mais o que queremos, isso é que é maravilhoso: o simples direito de se manifestar pelo que nos faz mal! Isso soa barbarismo? Soa animal? Não, soa humano, demasiado humano como animais no que nunca deixamos de ser! E que bom que nunca deixamos de ser! Talvez o Brasil esteja se tornando mais grego! Aqueles gregos gloriosos - (nisso os filósofos talvez me entendam melhor). Por isso que não tenho nenhuma opinião sobre se uma multidão deve sair quebrando tudo ou não, a multidão é animal, ela é muito humana para deixar sua necessidade mais biológica de lado em prol de comportar-se feito um infeliz imbecilmente bem adestrado que espera boa vontade de quem já está há muito tempo bem acomodado, confortável e protegido por uma máquina de guerra e que sabe que pode permanecer completamente indiferente às demandas do povo – o que vem acontecendo já em tempos! Ora, não é com a tolerância e passividade típica de nós brasileiros que permanecemos até hoje insatisfeitos com a falta de atitude de nossos governantes? Pergunte aos franceses como que eles acabaram com a verdadeira frescura em que já se mostrava uma monarquia em 1789. Nos tempos de insatisfação e crise, o “comportar-se” é que justamente soa o mais desumano, não é quando nos comportamos bem que um surdo não nota nada à sua volta? Mas também poderia perguntar: não é com o bom comportamento que as coisas mudam?... Tanto faz! Se tanto faz, quem tem moral pra mudar a cabeça de alguém que está enfurecido (e com muita razão) para já não sair quebrando tudo? Deixe-o, que o destino o carregue, é a sua maneira de reagir, e que leia-se bem: às alturas que andamos hoje, essa já é a ÚLTIMA, desesperada maneira de reagir de um povo que já está desesperado! A bizarrice que existe hoje em dia é ser insatisfeito e bem comportado: esse é o mínimo necessário pra quem quer se manter no poder, é o mínimo necessário pra manter a própria ordem engessada e corrupta que ninguém atura mais, é a maior desumanidade que cada um pode fazer consigo. É muito fácil, e repito, é realmente muito fácil permanecer na velha e mofada postura que diz: “ah mas essas manifestações estão fazendo baderna, eu sou contra, quero ver se você sendo atingido por bombas da polícia não vai sair de fininho assustado” - ACORDA!!! Mais do que nunca talvez o sacrifício esteja agora sendo necessário!  Em um momento de profunda insatisfação, justamente permanecermos bem comportados é que mantém o confortável livre arbítrio de quem deveria mudar alguma coisa por nós, e que se não acabar mudando, restará somente a NÓS mudarmos, nem que o tempo se estreite em nos indicar talvez as vias dolorosas!!! Não, isso não é algum tipo de apelo premeditado à violência, mas apenas o alerta de que provavelmente estejamos nos aproximando de um limiar onde não nos haverá mais escolhas... Aos que acreditam em Deus, que ele então nos rume para o melhor... E aos que não acreditam, que o melhor então nos surja, insondável como o resultado espontâneo de uma multidão desesperada, de uma multidão que já não sabe mais nem o que quer! Não é mais razão, é natureza!

Nos encontramos às portas da velha Grécia! O perigo já é insuportável, mas o prazer é igualmente enorme! Avante amigos!! Porque falar em “camarada”, também já nos é repugnante!

                                                                             Philip G. Mayer

                                                                                   
“Tudo é precioso para aquele que foi, por muito tempo, privado de tudo!” - F. Nietzsche

 

Um comentário:

  1. Beleza Philip,muito bom.....
    Minha opinião é que nem Deus (o que é isso?) virá para nos apontar o caminho (pelo mesmo motivo que deixou Jesus só na hora que ele, Jesus, tinha de fazer a escolha fundamental), nem virá como uma multidão e não nos dará escolha....Infelizmente (ou felizmente) Philip, talvez seja mais difícil que isso, e mais dolorido: Teremos de descobrir como realizar nossos imensos desejos de olhos abertos, e conscientemente....Sem mistificação, sem certos e errados, sem iluminados contra imbecis (e nisso difiro de Nietzsche), e com a humildade de admitir que talvez a racionalidade nos iluda, pois para admitir isso "de verdade" e não meramente em palavras vazias é preciso humildade......Quando o ser humano (quero dizer o gênero humano) fizer isso possivelmente descobrirá uma forma mais clara que a claridade, a consciência plena do que é, do que quer e do que pode, sem mistificação....Esse é o caminho dos filósofos....Abraço.....

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