terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Assim Falava Zaratustra: os aleijados às avessas

“Desde que vivo entre os homens, porém, o que menos me importa é ver que a este falta um olho, àquele um ouvido, a um terceiro a perna, ou outros que perderam a língua, o nariz ou a cabeça.

Vejo, e já vi coisas piores: e tão espantosas, que delas preferiria não falar, e outras não posso guardá-las em silêncio: vi homens que carecem de tudo, conquanto tenham qualquer coisa em excesso; homens que são unicamente um grande olho, ou uma grande boca, ou um grande ventre ou qualquer outra coisa grande. – A esses chamo eu aleijados às avessas. 

Quando, ao sair da minha solidão, atravessava pela primeira vez esta ponte, não acreditei nos meus olhos, olhei para todos os lados e acabei por dizer:

– Mas é uma orelha! Uma orelha do tamanho de um homem! – E ao olhar de mais perto, vi que por trás da orelha movia-se o que quer que fosse tão pequeno, mesquinho e débil que causava dó. E efetivamente: a monstruosa orelha estava pousada num tênue e curto caniço e esse caniço era um homem! – Com o auxilio de uma lente ainda se podia reconhecer um rostinho invejoso, e também uma alma vã que se agitava no remate do caniço. O povo, contudo, dizia-me que a orelha – grande era, não só um homem, mas um grande homem, um gênio. Eu, porém, nunca acreditei no que o povo diz quando fala de grandes homens, e persisti em acreditar que era um aleijado às avessas, com pouquíssimo de tudo e uma só coisa em demasia.”

Assim Falava Zaratustra

 

Um comentário:

  1. Bá, que citação! E cada vez que vejo Lenny regendo Mahler fico mais um pouco abobado.

    ResponderExcluir