quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O Gênio do Coração

O gênio do coração, assim como o possui aquele grande dissimulado, o deus-tentador e nato pega-ratos da consciência, cuja voz sabe descer até o submundo de toda alma, que não diz uma palavra, não lança um olhar em que não se encontre uma consideração e um vinco de sedução, a cuja mestria pertence que ele entenda de aparentar – e não aquilo que ele é, mas aquilo que para os que o seguem constitui uma coerção a mais para se aglomerar sempre mais próximo em torno dele, para segui-lo sempre mais profunda e radicalmente – o gênio do coração, que a tudo o que é ruidoso e presumido faz emudecer e ensina a escutar, que alisa as almas ásperas e lhes dá de saborear um novo anseio – permanecer quietamente estendidas como um espelho para que o céu profundo nelas se reflita -; o gênio do coração, que ensina a mão apalermada e demasiado apressada a hesitar e a segurar mais graciosamente; que adivinha o tesouro escondido e esquecido, a gota de bondade e a doce espiritualidade sob o opaco e espesso gelo, e que é uma varinha mágica para todo grão de ouro que por longo tempo jazeu soterrado no cárcere de profusa areia e lama; o gênio do coração, de cujo contato cada um segue adiante mais rico, não agraciado e surpreendido, não como que beneficiado e oprimido por bondade alheia, porém mais rico de si próprio, mais jovem do que antes, desabrochado, bafejado e sondado por um vento tépido, talvez mais incerto, mais delicado, mais frágil, mais alquebrado, porém cheio de esperanças que ainda não têm nome, cheio de uma nova vontade e fluir, cheio de uma nova má vontade e refluir... mas o que faço, meus amigos? De quem vos falo? Foi tão longe meu esquecimento que nem sequer vos mencionei seu nome? A não ser que já tenhais adivinhado por conta própria quem é esse questionável espírito e deus, que de tal maneira quer ser louvado. Como ocorre a todo aquele que desde criança sempre esteve a caminho e no estrangeiro, assim também me ocorreu encontrar alguns estranhos e nada inofensivos espíritos, mas sobretudo aquele do qual acabo de falar, e repetidas vezes o encontrei, ninguém menos que o deus Dioniso, aquele grande ambíguo e deus-tentador ao qual certa vez, segundo sabeis, em meio a todo segredo e reverência, ofereci minhas primícias – na condição de último, segundo me parece, a lhe oferecer um sacrifício: pois não encontrei ninguém que tivesse compreendido o que fiz então. Nesse meio tempo acrescentei muito, muitíssimo, ao meu aprendizado acerca da filosofia desse deus, e, como já disse, de boca a boca – eu, o último discípulo e iniciado do deus Dioniso: e quem sabe eu finalmente devesse, meus amigos, dar-vos de provar um pouco, até onde me seja permitido, dessa filosofia? A meia-voz, como cabe: pois aqui se trata de muita coisa misteriosa, nova, estranha, singular, inquietante. Apenas o fato de que Dioniso seja um filósofo, e de que, portanto, também os deuses filosofem, parece-me uma novidade nada inofensiva e que talvez desperte desconfiança precisamente entre filósofos – entre vós, meus amigos, ela já tem menos contra si, a não ser que ela chegue muito tarde e fora do momento oportuno: pois, segundo me foi dito, hoje acreditais de má vontade em deus e deuses. Além disso, talvez eu deva ir mais longe na franqueza de minha narrativa do que sempre agrada aos hábitos severos de vossos ouvidos? Certamente o referido deus foi mais longe, muito mais longe, em diálogos semelhantes, e sempre estava muitos passos à frente de mim... Sim, eu lhe atribuiria segundo o uso dos homens, caso fosse permitido, belos e solenes nomes de pompa e virtude, teria de fazer muitos elogios à sua coragem de investigador e descobridor, a sua ousada retidão, veracidade e amor à sabedoria. Mas com todos esses veneráveis trastes e pompas um semelhante deus não sabe o que fazer. “Guarda isso”, diria ele, “para ti e teus iguais e para quem quer que o precise! Eu – não tenho nenhum motivo para ocultar a minha nudez!” – Adivinha-se: a essa espécie de divindade e filósofo talvez falte pudor? – Assim disse ele certa vez: “Às vezes amo o homem” – e com isso se referia à Ariadne, que estava presente -: “O homem é para mim um animal agradável, valente, inventivo, que não tem igual sobre a Terra, em todos os labirintos ele ainda encontra a saída. Sou bondoso para com ele: medito frequentemente em como levá-lo adiante e em como torná-lo mais forte, mais malvado e mais profundo do que é.” – “Mais forte, mais malvado e mais profundo?”, perguntei apavorado. “Sim”, disse ele mais uma vez, “mais forte, mais malvado e mais profundo; também mais belo” – e depois o deus-tentador sorrio o seu sorriso alciônico, como se tivesse acabado de dizer uma graça encantadora. Vê-se aqui, ao mesmo tempo: não falta apenas pudor a essa divindade -; e há em geral boas razões para presumir que em algumas coisas todos os deuses teriam a aprender conosco, os homens. Nós, homens, somos – mais humanos...    

                                     F. Nietzsche (Para Além do Bem e do Mal; aforismo 295)  


       

Um comentário:

  1. Belo! Um Deus que não faz revelações, mas suscita em você procurar-lo nas suas mais profundas reflexões, na sua natureza humana. Um Deus amável, que vê em sua criação algo belo, incapaz de julgar, ao contrário, capaz de aproximar-se tanto do homem apenas para dizer que o ama infinitamente, sempre amou e sempre amará. Antevejo um novo homem, diante do mesmo Deus, um homem que não despreza à sí mesmo, mas eleva-se tanto a ponto de encontrar em sí seu criador, e então eleva-se sem limites. Esse Deus é para mim o mesmo Deus de sempre, as vezes incompreendido, mas sempre acessível à quem o procure. Beleza e busca, exemplo pessoal, nada mais. Diminuir-se, por que? Se o próprio Deus nos eleva, ama, usa como exemplo! Em fim, Cristo para mim é isso.

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