segunda-feira, 3 de março de 2014

Ponto Zero

"Tudo que existe nasce sem motivo, se prolonga por fraqueza e tem um encontro com a morte" - Jean-Paul Sartre

Pois bem, diria Zaratustra, então eis aí o motivo para "significar" e "resignificar" as coisas, nem que para isso seja necessário a significação mais pessoal. A náusea é a ponte, o nada, o fim de todo o pessimismo plenamente acabado e realizado, portanto, o princípio necessário e ponto zero do que agora virá a ser divinamente indestrutível e continuamente crescente: o grande otimismo. 

                                                                          Philip G. Mayer

2 comentários:

  1. Encontro com a morte!
    Já não é o primeiro encontro, pois antes estávamos mortos.
    A vida é apenas um descanso da eternidade, à qual voltaremos com certeza matemática. A eternidade, o que falaria Zaratustra sobre ela? A própria eternidade não morreria também? Ou seria a morte da eternidade o próprio universo? Na realidade, o que importa, ao menos para mim, é a vida que tenho, o oxigênio que respiro, o Deus ao qual me ponho de joelhos e que significo como amor sem limites. Amor, o que Zaratustra diria sobre ele? Amor morre? Se morre nasceu, nasceu do que? Ah, esse Zaratustra bem que poderia tomar um chimarrão comigo um dia desses! Para mim, amor não morre, nem nasce. Apenas existe. E não seria isso realmente o grande significado? Existe e ponto.

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  2. O grande significado inevitável e necessário, mesmo que esse grande significado seja misterioso à consciência em um momento difícil onde as coisas parecem por um instante ter se desagregado... Pois o que sabemos do além?... É isso que queres dizer? Sim, Zaratustra certamente concordaria contigo! O que quis dizer ali é: se também é inevitável constatar que tudo que existe nasce sem motivo, se prolonga por fraqueza e tem um encontro com a morte (e que constatação nauseante mesmo), diria Zaratustra: ora, então é inevitável também que tenhamos de reinserir ininterruptamente o novo significado às coisas, moralizemos o universo sempre favoravelmente à nossa mais profunda vontade de viver, nossa vontade de poder. A soma dará forma então ao que apontasses como o grande significado. Só o fraco, aquele que a vontade de viver é baixíssima, para justificar a sua condição (ao invés de tentar reverte-la) diria que isso seria ilusão atrás de ilusão... Como se houvesse uma verdade por de trás da contemplação profunda de cada homem sobre as coisas (e só ele tivesse a presunção de saber qual é essa verdade), como se esse fraco ao renunciar às coisas em favor de uma “espiritualidade ideal” revelasse algo melhor (e preferível) por trás da significação das coisas tornando-se assim um místico perigoso e no mínimo recomendável de se ouvir e obedecer “pois ele sabe de coisas que vão além da nossa compreensão e assim somente ele tem maior moral para nos dizer se o caminho que tomamos era certo ou não”: um sacerdote que põe os outros em desconfiança de si próprios. E assim existem sacerdotes das religiões, sacerdotes das ciências, da política da filosofia... Justificar a fraqueza é totalmente coerente para alguém que prefere a morte quando os ocorridos da vida lhe são fortes demais... (e assim com essa justificação, com a fraqueza tornada até uma objeção de valor moral superior para todos se dá então a catastrófica inversão de valores em toda a sociedade ocidental que Nietzsche vai criticar sem piedade). Acho perturbador como isso foi invertido a tal ponto de se elevar a ausência de significado em todas as coisas como justo “a mais profunda sabedoria e espiritualidade”... Agora o forte é visto como um ingênuo, talvez um preconceituoso, alguém que “irá sofrer porque, coitado, ele não sabe...”, talvez um duro, muitas vezes um bárbaro, ele é visto como um perigo ameaçador e não apenas como alguém que age espontaneamente... Já o fraco agora é justamente o que tem uma moral superior, o que se arrasta agora ganhou valor, ora, então não é até compensador em uma sociedade assim continuar se arrastando? O que sofre tem mais valor e hipocritamente quer ensinar a todos o que é viver sem ter o perigo de sofrer... Claro, é preferível já ser sofredor para não ter o perigo de se sofrer de novo... É preferível esperar pela dor prevenindo-se dela a todo o custo (e para isso serve muito a medicina e tecnologia) do que afirmar a vontade de viver, afirmar a vontade de poder! Prefere-se preservar o mesmo significado de tudo ao invés de criar novamente, mas esqueceram de que até os significados envelhecem e morrem... Abraço!

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