segunda-feira, 30 de junho de 2014

Os otimistas são o tipo de pessoa que ama a humanidade, mas detesta seus semelhantes

O maior fetiche de nossa época é a busca da felicidade. Vários são os instrumentos utilizados para tal intento, um deles, um tanto mais sofisticado para um mercado tão brega como o da felicidade contemporânea, é a literatura de autoajuda. O foco dela é quase sempre elevar a autoestima. Mas não devemos menosprezar a autoajuda achando que ela seja apenas um pecadinho de ignorantes. A filosofia, às vezes, também peca afirmando coisas que nem sempre são realidade, uma delas (essencial em nossa época, muito utilizada por uma das coisas mais ridículas que temos, os workshops motivacionais) é a ideia de que o homem seja bom ou, dito de outra forma, de que a natureza humana seja boa em si e capaz de “evoluir” (nenhum sentido darwiniano aqui). Se pensarmos bem, veremos que no fundo afirmações como essas sustentam a suspeita de que a autoajuda começou como um pecado de alguns filósofos. Quais seriam? 

Minha tese é de que o desejo de mentir sobre a natureza humana é recente na filosofia e surge como reação à ruína do sistema medieval de pensamento centrado na noção de pecado, reação esta trazida pelas mãos do mundo moderno burguês. Mas, antes de descrever esse processo de surgimento da filosofia autoajuda da autoestima (que reúne em si a nova esquerda e os departamentos de recursos humanos das empresas num ato comum de picaretagem), farei um pequeno reparo. 

Hoje em dia, uma das coisas mais queridas do politicamente correto é afirmar que não existe natureza humana. O homem e a mulher seriam “construídos social e historicamente”. Vimos uma ideia semelhante a essa no campo da sexualidade chamada de teoria de gênero. A praga PC gosta dessa afirmação porque ela passa a ideia de que podemos melhorar (seja lá que sentido tiver essa expressão “melhorar”) infinitamente intervindo “livremente” em nós mesmos construindo seres humanos “livres” de si mesmos. A raiz dessa crença também é a tentativa de superação da ideia de pecado como “DNA da natureza humana” nas suas mais variadas formas. A intenção é negar que exista qualquer limite ao desejo humano de se transformar, fazendo da vida humana uma espécie de “projeto contínuo do humano novo”. Por isso, afirmar que exista natureza humana por si só já soa politicamente incorreto, porque parece impor o limite que nossa adolescente modernidade detesta ver. 

Na Idade Média, a natureza humana era basicamente pensada em termos teológicos: somos como nossos pais Adão e Eva, orgulhosos, viciados em sexo, mentirosos, invejosos e outras coisas óbvias que todo mundo sabe que é verdade, mesmo que Adão e Eva nunca tenham existido. Hoje em dia, a briga contra a natureza humana é uma briga contra o darwinismo e os limites impostos pelo que seria inato e não adquirido socialmente. Um dos maiores traços do mau caráter dos politicamente corretos é o marketing da transformação infinita de si mesmo e dos homens que teorias socioconstrutivistas (a moçada do “homem é uma criação social, logo, vou criar o homem que acho legal”) pregam. 

A mentira PC remonta aos filósofos que foram os pais da modernidade. O primeiro deles é o italiano Pico della Mirandola, que viveu no século 15. Não estou dizendo que ele era politicamente correto (nem podemos dizer que Rousseau e Marx tampouco o eram, uma vez que nem o termo existia), mas sim que seu pensamento é chave para a mentira PC ter nascido como filosofia. 

Em seu livro Da Dignidade da Natureza Humana, Pico afirma, contra a teoria do pecado original da época, que a natureza humana não era definida em princípio por pecado algum, logo, podia “criar a si mesma”. Pico não podia ter noção da dimensão que uma ideia como essa assumiria. Tampouco podemos supor que todo mundo leu Pico e por isso existe a praga PC. Não, as coisas são um pouco mais complicadas do que isso. E, aqui, devemos fazer uso de uma breve análise da história das origens da modernidade, que estava nascendo exatamente nesse período. A ideia de Pico é fruto do processo de nascimento do mundo burguês pautado pela necessidade de crermos na capacidade livre e infinita do homem de criar e de produzir, daí que um pessimismo com relação às potências humanas seria uma má ideia, como no caso do pecado. Vemos que na origem do otimismo de Pico está uma vontade de crer num homem livre e autônomo. Entretanto, só alguém cego não vê que não “estamos com essa bola toda”. Se você quiser acertar numa análise que envolva seres humanos, continue a usar o pecado como ferramenta para compreender o comportamento humano: orgulho, ganância, inveja e sexo continuam a mover o mundo (a luta de classes nada mais é do que um caso de ganância e inveja). O culto da ciência como conhecimento seguro do futuro humano sob controle das experiências “em laboratório” degenerou no culto do ser humano como tendo controle do que ele é e do que ele pode vir a ser. O próprio nascimento do Estado moderno e sua burocracia de controle do cotidiano também marcaram esse processo, na medida em que a experiência da organização da vida carrega em si um sentimento de potência positiva. Assim sendo, a ideia de Pico se deu num cenário de fé no humano, e não que ela tenha criado essa fé no humano. 

A herança desse otimismo inicial se fará ainda mais clara quando filósofos como Hobbes e Locke, no século 17, e Rousseau, no século 18, começarem a se perguntar acerca da natureza humana e suas possibilidades políticas de organização naquilo que costumamos chamar de filosofia do contrato social. A oposição clara se dará entre Hobbes e Rousseau, sendo que o segundo é de fato o pai da esquerda e de todo otimismo filosófico-político posterior a ele e, por decorrência, do politicamente correto. Para Hobbes, a natureza humana é egoísta, amedrontada e traiçoeira porque a vida, quando em desordem, traz à tona sua precariedade essencial. Por isso ele dizia que o homem é mau, e a sociedade o faz menos mau. Para Rousseau, o homem nasce bom, e a sociedade é que o estraga. Daí ele propor que devemos fazer uma sociedade em que os pobres mandem, porque eles tiveram menos sucesso com a sociedade corrompida existente. A chave da análise de Rousseau está na suposição de que nossa natureza “pura” só deseja o que é necessário. Os ricos puderam desejar além do necessário e foram corrompidos, os pobres não. Um governo dos pobres seria, portanto, menos corrompido. O próprio culto à ideia idiota de que deveríamos “aprender a viver” como os índios, os aborígines e as tribos africanas que vivem ainda no Neolítico advém dessa bobagem rousseauniana e da versão retardada do mal-estar romântico de que falamos antes. Apesar de hoje já sabermos que pobre pode ser tão ruim quanto rico, e que índios estão muito longe de ser sábios cultivadores de virtudes morais e naturais, a praga PC ainda insiste em dizer que a farsa de Rousseau, o tipo de pessoa que ama a humanidade, mas detesta seu semelhante, é verdade. O fato é que todo mundo gosta de ouvir que é bom e que os outros é que o fazem ser mau e infeliz. 

Podemos ver que a literatura de autoajuda para elevar nossa autoestima é derivada dessa mentira de Rousseau: somos bons, basta que nos seja dada a chance de assim o sermos. Por isso que a felicidade vendida por esse mercado da autoestima sempre começa pela afirmação de que somos capazes e termina com a de que tudo dará certo. Não passa de um produto tardio e barato do velho fetiche burguês de querer acreditar em seu potencial. A própria ideia de dizer, como na educação, que todos os alunos são iguais e têm competências é fruto dessa mentira. Não, alguns poucos carregam a aula e o mundo nas costas. 

Não vou me dedicar a criticar a autoajuda enquanto tal aqui porque todo mundo faz isso. O importante é que o leitor perceba que a autoajuda e a autoestima se encontram com o politicamente correto na medida em que ele é incapaz de dizer qualquer coisa que não seja afirmar a “beleza moral do homem”, prejudicada apenas pela maldade de alguns poucos. Seu jogo é alimentar o orgulho humano, portanto, na verdade, ele é um tipo banal do velho pecado humano da vaidade. Mas numa versão baratíssima e miserável sem o drama trágico de um pecador como Raskolnikov de Crime e Castigo, de Dostoiévski, ou de um Adão do Paraíso Perdido, de John Milton. Dizer coisas como todo índio é legal, pobre é sempre gente boa, gay é sempre honesto, “eu não gosto de dinheiro”, quando na realidade todo mundo tem sua dose de miséria, além de vaidade barata, simplifica (como sempre, o pior efeito da praga PC é a burrice que ela cultiva) a natureza humana, nos impedindo de pensar em nós mesmos de modo adulto. Ideias como as de Pico e Rousseau servem para nos deixar infantis, e só gente infantil acredita na felicidade. Fingindo ser contra o mundo do mercado e do dinheiro, o politicamente correto é um dos seus produtos mais vagabundos em termos de qualidade. Entre a felicidade e a autoestima, prefiro o pecado. 

Por último, ainda tratando da natureza humana, vale a pena recomendar um antídoto contra a filosofia que criou a autoajuda: os moralistas franceses do século 17. “Moralista” em filosofia não é alguém que gosta de “dar regras” para os outros, mas sim um filósofo especialista em expor as fraquezas da natureza humana. Alguns mais famosos foram Pascal, La Rochefoucauld e La Bruyère. Por exemplo, o La Rochefoucauld dizia que “espíritos são como amor verdadeiro, todo mundo diz que existe, mas ninguém nunca viu”. Outra máxima sua é muito conhecida: “A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”.

                                                   Luiz Felipe Pondé (Guia Politicamente Incorreto da Filosofia)



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