sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O Sentido do Mundo


Por muito tempo (principalmente desde Kant) acreditamos que as nossas intenções fossem soberanas e livres, espécie de semideuses a arbitrarem pelo mundo e a se transmutarem em fenômenos no mundo. Gradativa e muito lentamente, passamos a compreender que no mínimo em tão igual vontade oposta, todo o mundo dos fenômenos também formula e constrói nossas ingênuas intenções que querem tanto se alçar à arrogante soberania moral. Realmente, como pudemos ser por tanto tempo tão ingênuos?... E se essa vontade oposta também fosse uma diversidade de quaisquer outras intenções a quererem se impor cada uma na forma de fenômenos “contra” nós? E se no final das contas dentre todas as coisas cada uma tivesse uma inteligência a intencionar fenômenos no mundo e então o universo não passasse apenas de um gigantesco e eterno campo de batalhas onde cada parte luta incessantemente por expressar a sua individualidade? Ora, e não é isso? E então como poderia haver qualquer “fim” para a humanidade? Como teria de haver um “destino” para todas as coisas? Como haveria qualquer “ponto de chegada”? E por consequência, “ponto de partida”, “evolução”, graus ou níveis de algum “caminho certo” que convergiria para qualquer suposto lugar imutável e satisfatório? Ora, justamente por crermos em alguma direção que as coisas teriam de tomar, algum destino onde todos teríamos de descer juntos ao final dessa viagem onde a carruagem nunca teve qualquer rumo e sempre foi livre para seguir, que então facilmente nos tornamos tiranos uns dos outros, pois cria-se aí toda a gama de valores dicotômicos como bem, mal, superior, inferior, etc. A comparação entre duas coisas afim de estabelecer qualquer dicotomia de valores como, por exemplo, X´ ser superior a X´´ que por sua vez é inferior torna-se possível somente via estabelecimento sempre de um terceiro elemento posto em jogo para referência das partes comparadas sendo este terceiro elemento sempre estabelecido ainda a partir de uma intenção de qualquer outra parte, e portanto sempre estando a mercê de ter suas propriedades já no princípio inclinadas "injustamente" a favor de qualquer uma das partes comparadas, permanecendo indiferente que isso seja ou não compreendido posteriormente. Nenhuma referência para comparação surge de algum "mundo metafísico", mas sempre desse mundo daqui mesmo, pois é elaborada por uma parte desse mundo, que intenciona a referência influenciado por todos os fenômenos desse mundo mesmo, a justiça naquele ideal platônico não existe! Inevitavelmente, mesmo por detrás de tenros olhares amorosos, se elaboramos qualquer destino último para a humanidade, ainda exigimos que o outro tenha de “ir por aqui”, e se mesmo assim não o faz, no mínimo em alguma forma circunscrita na moral ainda o consideraremos inferior. Ao negarmos toda presunção tirânica por parte das religiões, das ciências e qualquer modelo mental de prescrever um “fim”, “início”, “meio”, “nível”, “caminho”, em suma, qualquer forma de “direção” para as coisas do mundo, chegamos à própria nulidade do que é o sentido da existência, muito mais descritiva, que indutiva: uma massa infindável e indeterminada de força atemporal e inespacial onde tudo quer obter o seu direito de existir. Tudo quer expressar-se! E por fim, o que seriam então os fenômenos em definitivo? Quem o poderia dizer se isso também não seria querer intencionar qualquer significado para eles, sendo todas as intenções mesmas geradas por eles mesmos, os fenômenos? Tudo é fenômeno, e tudo também é intenção ou, na linguagem nietzscheana, vontade de poder. Aliás, Nietzsche já havia esboçado tal conclusão em seu último aforismo da sua obra póstuma síntese de toda sua filosofia “A Vontade de Poder”:

“Sabeis vós também o que é para mim “o mundo”? Devo mostrá-lo em meu espelho? Este mundo: uma imensidão de força, sem começo, sem fim, uma firme, brônzea grandeza de força, que não se torna maior, não se torna menor, não se consome, só se transforma e, como um todo, é de imutável grandeza, um orçamento doméstico sem gastos e sem perdas, mas, do mesmo modo, sem crescimento, sem ganhos, encerrado pelo “nada” como por seu limite, nada que se desvaneça, nada desperdiçado, nada infinitamente extenso, mas sim, como força determinada, posto em um determinado espaço, não em um lugar que fosse algures “vazio”, antes como força em toda parte, como jogo de forças e ondas de força, ao mesmo tempo uno e vário, acumulando-se aqui e ao mesmo tempo diminuindo acolá, um mar em forças tempestuosas e afluentes em si mesmas, sempre se modificando, sempre refluindo, com anos imensos de retorno, com vazante e montante de suas configurações, expelindo das mais simples às mais complexas, do mais calmo, mais inteiriçado, mais frio ao mais incandescente, mais selvagem, para o que mais contradiz a si mesmo e depois, de novo, da plenitude voltando ao lar do mais simples, a partir do jogo das contradições de volta até o prazer da harmonia, afirmando a si mesmo ainda nessa igualdade de suas vias e anos, abençoando a si mesmo como aquilo que há de voltar eternamente, como um devir que não conhece nenhum tornar-se satisfeito, nenhum fastio, nenhum cansaço -: este meu mundo dionisíaco do criar eternamente a si mesmo, do destruir eternamente a si mesmo, este mundo misterioso da dupla volúpia, este meu “além de bem e mal”, sem fim, se não há um fim na felicidade do círculo, sem vontade, se não há boa vontade no anel que torna a si mesmo – vós quereis um nome para este mundo? Uma solução para todos os seus enigmas? Uma luz também para vós, ó mais esconsos, mais fortes, mais desassombrados, mais ínsitos à meia-noite? Este mundo é a vontade de poder – e nada além disso! E também vós mesmos sois essa vontade de poder – e nada além disso!” – (F. Nietzsche)

Ora e não é isso? E nada mais, além disso!

                                                                           Philip G. Mayer
                                                                                 



                                                                                    

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