quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Crença e Bem Estar

Meu interesse principal no ser humano não é exatamente saber no que deveríamos crer, penso que cada indivíduo possa acreditar no que bem lhe convir onde preencha sua vida de significado. O meu interesse é saber em como se dá o nosso bem estar fisiológico quando justo isso é um efeito da relação que estabelecemos com a crença, ou seja, o que me interessa saber é até que ponto dominamos nossa crença ou é a crença que nos domina. Se algo que acreditamos escraviza a possibilidade de qualquer outra hipótese se não aquilo que se crê, então daí decorre todo o mal estar interior e por consequência exterior do homem consigo mesmo e na sua relação com o outro. O escravo do que crê não concebe a possibilidade da sua ideia poder vir a cair por terra algum dia ou simplesmente se extinguir pelo fim da sua necessidade, ele não a toma como um efeito das observações acerca do seu bem estar, mas como causa fundamental e única para ele; ele não a toma como um meio e/ou fim
do seu bem estar, mas a formula já crendo num critério primeiro de que essa condição pessoal não deve entrar aqui em questão... Crê inconscientemente que valorar uma ideia (seja ela de mundo ou não) onde ela tenha referência no seu próprio bem estar seria uma atitude egocêntrica e interesseira onde se blasfemaria contra um suposto espírito filosófico "digno"... Ora, mas isso ainda é um resquício da velha hipocrisia moral judaico cristã defensora de um propósito divino metafísico que divide a massa coletiva dos homens entre bons e maus... Pois todas nossas condutas analisadas sob o mais profundo olhar independente de nossas crenças inexoravelmente tem os seus fins últimos no ganho de um bem estar pessoal, seja ele fisiológico ou no espectro da moral (que por sua vez traz consequências fisiológicas). Baseado em que critérios alguém argumenta que as condutas humanas deveriam ser indiferentes a essa pessoalidade? Aliás, como isso seria possível? Em suma, voltamos à velha e conhecida questão que permanece: por que o sacrifício do bem estar individual, o desprezo do eu em nome da satisfação de um ideal construído? Com isso não quero dizer que os ideais (ideias) devem ser negados, ou então estaria defendendo a extinção da nossa própria consciência psíquica ou capacidade de pensar que se dá a partir da percepção dos fenômenos e, portanto, da idealização (representação) deles; mas o que quero dizer é: deveríamos compreender que independente das intenções de nossas crenças, formulações e condutas, há um fator fim que sempre estará presente
junto, a finalidade de um bem estar interior. Tal finalidade deveria ser novamente posta no centro das discussões tanto na forma de causa assim como também efeito a cada vez que se quer investigar uma “explicação” para algo, somente assim aniquila-se a má consciência consequente da hipocrisia de se ansiar um discurso “verídico” independente do estado momentâneo das energias vitais de quem discursa, pois é a partir do próprio estado dessas energias que o discurso é formulado. Finalmente, é imprescindível que eu deixe claro o que quero dizer com “explicar algo”: “explicação” na intenção de que a lógica ou significado de algo sejam as únicas possíveis e válidas de se perceber; “explicação” na intenção de que a inferência que um indivíduo dá a um fenômeno seja ela unicamente possível e, portanto, supostamente indiferente do estado psíquico, fisiológico (e se quiserem até metafísico) do sujeito que “explicou”. Ora, logo se vê que a “explicação” é um bom artifício de poder tirânico de um indivíduo sobre outro, pois o fenômeno “explicado” permanece intacto e incógnito para todos os olhos que intencionam revelá-lo. Posto que os fatores que formam e influenciam um indivíduo são incalculáveis tanto na intensidade que agem quanto na diversidade que se fazem presentes em cada ser humano, nunca algo foi “explicado”! Mas no máximo descrito por alguém em determinado estado vital... Quanto maior a necessidade de se buscar uma “explicação” para todas as coisas, maior é o perigo de tornar-se acrítico e consequentemente tirano sobre os outros. A postura crítica sobre o mundo não é um atributo de quem busca a “verdade” sobre os fenômenos, mas como eles agem no bem estar dos indivíduos. Cada vez que explicamos algo não revelamos nada sobre a coisa em si, mas apenas sobre nós mesmos em determinado estado de nosso ser. 

                                                                               Philip G. Mayer


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