quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Da Homofobia

Ninguém nunca falou que uma nação vai ao encontro da sua maturidade cultural sem que se tenha de passar pela dor dos que demandam mais tempo para compreender as inexorabilidades da vida como ela é... E considero “maturidade cultural” a compreensão cada vez maior da vida como ela é nas suas inexorabilidades. Gays sempre existiram, existem e sempre existirão. A natureza homossexual é vista até mesmo em outras espécies animais e não somente a humana. Que eu sempre soube ninguém aprende a ser gay, simplesmente se é ou não se é. E inclusive mesmo que se pudesse aprender ou desaprender, por que não deveríamos também respeitar assim como aprendemos a respeitar o músico que escolheu sê-lo por ter se identificado mais na prática musical? Ou alguém um dia determinou regras desde o início para o que cada um deveria conduzir sua vida pelo resto da vida? O que se pede não é que se seja acolhedor com um gay que resolve dar em cima de você que é hétero, ou então pela mesma lógica teríamos também de exigir das mulheres que elas sejam acolhedoras com todos os homens que resolvem dar em cima delas e o mesmo valeria para os homens com todo o tipo de mulher que resolve dar em cima deles. O que se pede é a compreensão de que sim, há gays que podem dar em cima de você, e por quê? Ora, porque no mundo em que tu vives também inexoravelmente existem gays! Mas isso não quer dizer que você vai ter que virar gay quando um gay der em cima de você, mesmo se te fosse possível “virar” gay! Ademais não é nem por aí que ronda o espectro do debate: não se pede a supremacia da minoria LGBT sobre a maioria hétero (apesar da falta de clareza retórica por parte de alguns movimentos LGBTs parecerem querer isso, e é aí que acho indispensável a prevalência do senso crítico), o que se pede é a inclusão no respeito moral de direito de existência onde não pode haver o espaço para a hipótese “fulano tem um problema, ele é gay”. O problema é que nunca “ser gay” foi um problema! Ser músico é um problema? Não. Ser médico é um problema? Não. Ser deficiente é um problema? Não. Ser assassino é um problema? Em si não, apesar de que ser um envolve. Quem põe fim ao direito de se ser assassino não é propriamente o assassino (esse até pode pôr ou não), mas é quem lhe tira o direito de ser assassino. O mesmo vale para gays? Errado. Eu te pergunto: o que um gay ameaça na tua integridade? Se ele te ameaça em alguma coisa eu recomendo a dica do Drauzio Varella: procure um psiquiatra, você tem problemas. O que um assassino ameaça na tua integridade? Se ele te ameaça em alguma coisa eu recomendo que você procure a polícia porque é o assassino que deve ter problemas, não você! Falo essas coisas hoje porque eu admito que também tive de compreender tais sutilezas com o tempo, não cultivo a hipocrisia de achar que sou soberano para pensar o que “sempre” deveria ter sido o certo no mundo julgando-me independente do processo histórico, da formação da minha psique e circunstância social que estou inserido. Tanto eu quanto tu brasileiro estamos inseridos em uma sociedade que ainda expressa intolerância aos LGBTs, e sim somos influenciados por essa intolerância que nos rodeia. Façamos o possível para nosso amadurecimento, pois isso não atinge somente aos LGBTs, mas a toda a sociedade que por intermédio de construções morais equivocadas provindas do preconceito infundado criam obstáculos psíquicos que propiciam o surgimento de um ressentimento moral (onde se abre então o espaço para a descarga de expressões homofóbicas) e põe em perigo a integridade inclusive física dos LGBTs. “Mais um modelo niilista que nega a vida real em prol de um idealismo raquítico de como as coisas “deveriam ser” - é o que provavelmente diria Nietzsche sobre o moralismo homofóbico sustentado sobre bases imorais (a moral que não resiste diante da pergunta “por quê?”), inclusive daqueles que dizem que o patrocínio dos direitos LGBTs seria algo antinatural pois dois gays não podem gerar um filho... como se também aí houvesse um destino “certo” para o curso da natureza onde ela somente “deve” dar a luz novos descendentes... como se nós mesmos, partículas da humanidade, em nome de um modelo de mundo fôssemos deterministas sobre o que julgamos no que deve ser o destino de todos os indivíduos... Resquícios de um tempo em que ainda se acreditava na “salvação da humanidade” e que se descobriu que no fundo eram mais os “salvadores” que tinham que tratar de se salvar... Concluindo, penso que as coisas vêm em conjunto, tanto o preconceito desnecessário que criamos quanto o mal que ele mesmo nos causa, portanto, tratemos de cuidar do nosso próprio buraco e que cada um possa fazer do seu o que bem entender. E a humanidade? Vai bem, obrigado.   

                                                                        Philip G. Mayer


     

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