domingo, 14 de dezembro de 2014

Para a Epistemologia e a Moral

“Eu jamais iria para a fogueira por uma opinião minha, afinal, não tenho certeza alguma. Porém, eu iria pelo direito de ter e mudar de opinião, quantas vezes eu quisesse.” – F. Nietzsche

Quanto mais matemático é o conhecimento, mais idealista ele se torna, ou seja, mais abstrai as singularidades dos fenômenos pressupondo uma ocorrência de igualdade e repetição entre eles e, portanto, modificando suas naturezas ao dividi-los e categoriza-los segundo o critério da diferença e da igualdade onde cada percepção já é alçada (e congelada) ao status de "unidade" passível de ser subtraída do resto fenomenal e onde por sua vez esse resto é abstraído da consciência do sujeito perceptor. Esse é o conhecimento abstrato em que, por exemplo, se apoia o método científico. Consequentemente por pressupor uma mínima ocorrência de igualdade na natureza, logo também pressupõe como sendo um tipo de sabedoria atemporal em relação à transformação da matéria, o que constituiria uma contradição dado o que chamamos "tempo" como sendo a própria mutabilidade material percebida por um sujeito, e sendo idem este último também matéria em transformação.

Por outro lado, quanto mais independente da matemática, mais singular é o conhecimento, ou seja, mais ele considera as singularidades de todos os estados já pressupostamente finitos dos fenômenos, é um tipo mais observador do que agente, mais passivo do que ativo, considera a própria vontade do sujeito (intenção por trás do que é analisado) como fenômeno também propenso à mutação (transformação da matéria que forma o sujeito pensante), busca não abstrair nada e, portanto, objetiva ao máximo deixar que as forças contraditórias cumpram o seu papel por si mesmas no lugar de se intervir conscientemente em prol de alguma. Eis o conhecimento intuitivo. Consequentemente por não contemplar qualquer ocorrência de igualdade na natureza (justo por intuir a inexistência de tal ocorrência tanto na forma de igualdade como de diferença), logo só pode ser um tipo de conhecimento temporal, ou seja, ele provindo de um sujeito reconhece a mutabilidade do próprio sujeito analisante na sua interação com o objeto analisado onde também esse último transforma-se tanto de um ponto de vista como hipotética "coisa em si" assim como em consequência dependente da interação com o sujeito que o observa.

A estas duas categorias de conhecimento existentes, acredito eu, se reduzem (como sempre pertencendo ou à primeira ou a segunda) todo o espectro das possibilidades de conhecimento. Concluísse disso então as seguintes consequências de âmbito moral:


1)  Que qualquer forma de conhecimento que inferimos da realidade jamais poderá ter o status de “verdadeiro”, posto “verdade” aqui como qualquer afirmação que demande a obrigatoriedade de que um ou mais indivíduos aceite para si...

2)    Que “verdade” da forma como expus no primeiro item não passou até hoje de uma extraordinária ferramenta de persuasão de um indivíduo sobre outro e, portanto, de um meio poderoso de dominação totalitária e silenciosa que vem a estreitar pouco a pouco o horizonte de possibilidades.

3)   Que supondo a epistemologia como um “problema do conhecimento” na intenção de solucioná-lo para um consenso geral, então, há antes aqui um problema moral... Ou seja, a intenção de se buscar um consenso de epistemologia não passa apenas de uma desenfreada vontade de dominação que se reduz mesmo ao sentido mais tosco do termo: “se eu digo que tal coisa é tal como é, e tu discordas, é porque ainda não tens instrução suficiente para entender e se convencer do que estou afirmando”.

4)  Que ciência e mito (tanto quanto verdade e mentira), ambas agora se fundem em uma coisa só. Que toda a conclusão inferida sobre a realidade ganhou agora um novo lugar de importância mediante a singular necessidade momentânea do indivíduo. (Perspectiva, momento da perspectiva, relevância dos elementos de conhecimento do indivíduo para o indivíduo... isso em determinado momento...)

5)    Que o termo evolução ganhou agora um novo significado, que ao invés de se referir a um suposto “avanço” do (ou de um) conhecimento, passa a se referir à multiplicidade de conhecimentos. “Evolução” como sinônimo de “avanço” perdeu aqui definitivamente o sentido.

6)   Que o indivíduo agora é livre para inferir sobre a realidade, mesmo livre para inferir calçado em critérios que não são os seus, sempre inevitavelmente segundo as suas pessoais necessidades.

7)    Que as múltiplas formas de conhecimento existentes até hoje, mantêm sua total dignidade e utilidade para o bem estar humano, mas perdem toda premissa de que uma determinada forma em um sentido coletivo possa agregar um valor superior sobre qualquer outra forma, e passam a serem todas igualmente ferramentas, meios para o bem estar humano. Esse por último torna-se livre para optar por uma ou outra sabedoria que lhe seja mais pertinente em dado momento.

8)    Que sendo assim, a concepção de mundo ganha de volta o sentido trágico (grego) de existência onde é inerente a discórdia, o conflito e a dor profunda... Que essas inerências agora são aceitas, e há agora uma possibilidade de redenção frente a elas...  Mas também e em mesmo grau de profundidade o prazer, a alegria e a plenitude de espírito provindas justo da mais plena liberdade de expressão do indivíduo. Em suma, a vida torna-se mais intensa tanto para o bem quanto para o mal, sendo mesmo “bem” e “mal” meros valores de passagem, pontos de vista singulares em dado momento.


Tais conclusões me fazem crer se a história do conhecimento desde os antigos gregos até nós, não seria a história de uma grande depressão da concepção de realidade (fruto de um vício de pensamento) que só agora estaria convalescendo... Se desde lá o homem não teria se apegado pouco a pouco a paradigmas que estreitaram as possibilidades de contemplação do real... Tais paradigmas - é a minha desconfiança - sejam os axiomas matemáticos (Euclides) que ajudaram a congelar os conceitos no horizonte da percepção e trouxeram esta última cada vez mais próxima de depender da demonstração por cálculo... Surge nesse quadro então a “prova” (sempre matemática) como pressuposto para justificar a “verdade”... Surge nesse quadro então cada vez mais a crença na existência de uma suposta veracidade da percepção em oposição (e depreciação) de uma suposta aparência da mesma – Platão!

Justo por essa via, hoje a física quântica - consequência da linhagem científica - está cada vez mais próxima de encontrar-se exatamente com o pensamento metafísico desprezado pela própria tradição científica... Ao que me parece, mais e mais vislumbra-se a matemática como uma cognição que pode ser capaz de descobrir muito, mas de firmar muito pouco... Ela é apenas mais um método, ela não prova nada, ela é apenas regida segundo o interesse individual de dada circunstância singular (este sempre guiado pelo instinto de sobrevivência mais profundo), ela mesma, talvez, seja a abstração mais metafísica que já existiu na história. Ao que me parece, quanto mais atrelado à matemática (à capacidade de tornar algo uma “unidade”) mais estreito e limitado torna-se a percepção, maior o perigo de se ser escravizado por uma única perspectiva ou cadeia consequente de dada perspectiva... Em suma, mais idealista e, portanto, mais totalitário (moral) ao livre pensar torna-se o conhecimento...

No fundo nunca abandonamos a metafísica... Talvez só tenhamos passado por um longo período pensando que havíamos abandonado. A matemática foi apenas tornada um niilismo! Ela como certa perspectiva metafísica que congela conceitos no mundo físico negou todas as outras realidades metafísicas possíveis, fechou as portas de acesso a essas outras realidades a partir do nosso mundo físico e, como diria mesmo Nietzsche, ao fazer crer na existência de um único mundo físico possível, negou também a todos os outros!  

                                                                        Philip G. Mayer







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