quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A Causalidade em Nietzsche (1)

    O julgar é a nossa crença mais antiga, nosso mais habitual considerar verdadeiro ou não verdadeiro, um afirmar ou negar, uma certeza de que algo é assim e não de outra maneira, uma crença de ter, aqui, realmente "conhecido" - o que em todo julgar é tido como verdadeiro?
    O que são predicados? - Não tomamos as alterações em nós como tais, mas sim como um "em-si" que nos é estranho, que só "percebemos": e não as estabelecemos como um acontecer, mas sim como um ser, como "propriedade" - e inventamos, de acréscimo, uma essência na qual elas se prendem, isto é, postulamos o efeito como efetivante e o efetivante como o que é [Seiende]. Mas também ainda, nessa formulação, o conceito "efeito" é arbitrário: pois daquelas alterações que acontecem em nós e das quais acreditamos firmemente não sermos nós mesmos as causas concluímos que elas têm de ser efeitos: segundo a conclusão: "em cada alteração toma parte um autor". - Mas essa conclusão é já mitologia: ela separa o efetivante e o efetivar. Se digo "o relâmpago brilha", então estabeleci o brilhar, por um lado, como atividade e, por outro, como sujeito: portanto, supus um ser para o acontecer que não é um e o mesmo em  relação ao acontecer, mas antes permanece, é, e não "se torna". - Postular o acontecer como efetivar: e o efeito como ser: esse é o duplo erro, ou interpretação, do qual nos fazemos culpados.

    O  juízo - esta é a crença: "isso e aquilo são assim". Portanto, finca-se no juízo a memória de ter-se encontrado "um caso idêntico": o que, portanto, supõe comparação, com a ajuda da memória. O juízo não cria o fato de que pareça existir um caso idêntico. Antes, ele acredita perceber um tal caso; trabalha sob a pressuposição de que existem, em geral, casos idênticos. Ora, como se chama aquela função que há de ser muito mais antiga, que há de trabalhar antes e que compensa e assemelha os casos que não são iguais? Como se chama aquela segunda que, com fundamento nessa primeira, etc. "O que provoca sensações iguais é igual": como se chama isso que faz as sensações iguais, que as "toma" como iguais? - Antes que haja julgamento, o processo de assimilação há de estar já feito: portanto, há também aqui uma atividade intelectual, que não chega à consciência, como na dor por causa de um ferimento. Provavelmente, a todas as funções orgânicas corresponde um acontecimento interno, portanto, um assimilar, um segregar, um crescer etc.
    Essencial: partir do corpo e utilizá-lo como fio condutor. Ele é o fenômeno muito mais rico, que permite uma observação mais clara. A crença no corpo é mais bem estabelecida do que a crença no espírito.
    "Por mais fortemente que uma coisa seja crida: aí não reside nenhum critério de verdade." Mas o que é verdade? Talvez uma espécie de crença que se tornou uma condição da vida? Então, sem dúvida, a força seria um critério, por exemplo, em relação à causalidade.

                                       F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

Links - Próximo: A Causalidade em Nietzsche (2)
            Apresentação: A Causalidade em Nietzsche (Apresentação)

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