sábado, 21 de fevereiro de 2015

A Causalidade em Nietzsche (2)

    A determinação lógica, a transparência como critério da verdade ("omne illud est, quod clare et distincte perciptur", Descartes [em latim no original: "tudo o que é percebido de forma clara e distinta é verdadeiro"] ): com isso a hipótese de mundo mecânica torna-se bem-vinda e digna de crédito.
    Mas isso é uma grosseira confusão: como simplex sigillum veri [em latim no original: "simplicidade é a marca do verdadeiro"]. A partir de onde se sabe que a verdadeira propriedade das coisas está nesta relação com o nosso intelecto? - Não seria de outra maneira? que as hipóteses que lhe dão em maior grau o sentimento de poder e de segurança são privilegiadas, apreciadas e, consequentemente, designadas como verdadeiras? - O intelecto estabelece sua capacidade e poder mais fortes e mais livres como critério do mais valioso, consequentemente, do verdadeiro...
"Verdadeiro": 
pelo ângulo do sentimento -: o que estimula mais fortemente o sentimento ("Eu");
pelo ângulo do pensar -: o que dá ao pensamento o maior sentimento de força;
pelo ângulo do tatear, ver, ouvir -: aquilo a que se há de oferecer resistência o mais fortemente possível.
   Portanto, os graus supremos de desempenho despertam para o objeto a crença em sua "verdade", isto é, em sua realidade [Wirklichkeit]. O sentimento da força, da luta, da resistência persuade no sentido de que algo aqui a que se resiste. 

    O critério da verdade está no incremento do sentimento de poder.

    "Verdade": no interior de minha maneira de pensar, essa palavra não designa necessariamente uma oposição ao erro, mas sim, nos casos mais fundamentais, somente uma posição de diferentes erros, uns em relação aos outros: por exemplo, que um erro seja mais velho, mais profundo que outro, talvez mesmo inextirpável, à medida que um ser orgânico de nossa espécie não poderia viver sem ele: enquanto outros erros não nos tiranizam desse modo, como condições da vida, antes, comparados com tais "tiranos", podem ser eliminados e "refutados".
    Uma suposição irrefutável, - por que deveria, só por isso, ser "verdadeira"? Essa tese revolta talvez os lógicos, que estabelecem os seus limites como limites das coisas: mas há muito declarei guerra a esse otimismo dos lógicos.

    Tudo o que é simples é meramente imaginário, não é "verdadeiro". O que, entretanto, é real [wirklich] é verdadeiro, não é único nem pode ser ao menos redutível ao um.

    O que é verdade? (inertia, a hipótese com a qual surge algum contentamento, o menor consumo de força espiritual etc.).

                                                                  F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

            Anterior: A Causalidade em Nietzsche (1)
            Apresentação: A Causalidade em Nietzsche (Apresentação)     

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