segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A Causalidade em Nietzsche (3)

    Primeiro princípio. O modo de pensar mais fácil triunfa sobre o mais difícil - como dogma: simplex sigillum veri [em latim no original: "simplicidade é a marca do verdadeiro"]. - Dico: que a clareza deva atestar algo em favor da verdade, é uma perfeita criancice...
   Segundo princípio. A doutrina do ser, da coisa, de puras e firmes unidades é cem vezes mais fácil do que a doutrina do devir, do desenvolvimento...
    Terceiro princípio. A lógica foi suposta como facilitação: como meio de expressão - não como verdade... Mais tarde atuou como verdade...

    Parmênides disse "não se pensa o que não é" - estamos na outra extremidade e dizemos "o que pode ser pensado há de ser, seguramente, uma ficção".

    Há muitos olhos. Também a esfinge tem olhos: consequentemente, há muitas "verdades", e, consequentemente, não há nenhuma verdade.

INSCRIÇÕES SOBRE UM MANICÔMIO MODERNO

    "Necessidades do pensamento são necessidades morais."
                                            Herbert Spencer

"A última pedra de toque para a verdade de um princípio é o fato de não se poder conceber a sua negação."
                                            Herbert Spencer

    Se o caráter da existência devesse ser falso - e isso seria deveras possível - o que seria, então, a verdade, toda a nossa verdade?... Uma inconsciente falsificação do falso? Uma potência mais elevada do falso?...

    Em um mundo que é essencialmente falso, a veracidade seria uma tendência antinatural: uma tal tendência só poderia ter sentido como meio para uma certa potência mais alta de falsidade: para que um mundo do verdadeiro, do ente [do que é, Seienden], pudesse ser simulado, haveria primeiro de ser criado o veraz (nisso inclusive o cômputo de que um tal se creia "veraz").
    Simples, transparente, sem contradição consigo mesmo, durável, permanecendo igual a si mesmo, sem pregas, truques, cortina, forma: um homem dessa espécie concebe como "Deus", segundo a sua imagem, um mundo do ser.
    Para que a veracidade seja possível, toda a esfera humana há de ser muito limpa, pequena e respeitável: a vantagem há de estar sempre, em todos os sentidos, do lado da veracidade. - Mentira, perfídia, dissimulação hão de provocar espanto...  

                                                                         F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

            Anterior: A Causalidade em Nietzsche (2)
            Apresentação: A Causalidade em Nietzsche (Apresentação)

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