terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A Causalidade em Nietzsche (4)

    Acredito no espaço absoluto como substrato da força: esta limita e conforma. O tempo é eterno. Mas, em si, não há nem espaço nem tempo: "alterações" são apenas manifestações (ou processos dos sentidos, para nós); se postulamos para estes um retorno igualmente regular, então nada mais está fundamentado com isto, a não ser, justamente, o fato de que sempre aconteceu assim. O sentimento de que o post hoc é um propter hoc [em latim no original: "depois deste momento" e "antes deste momento"] é facilmente deduzido como mal-entendido; isso é compreensível. Mas manifestações não podem ser "causas"!

    Se alguma vez tivesse sido alcançado um equilíbrio de forças, ele ainda duraria: portanto, ele nunca aconteceu. O estado atual contradiz essa suposição. Se admitirmos que algum dia houve um estado absolutamente igual ao atual, essa suposição não seria refutada pelo estado atual. Todavia, entre as infinitas possibilidades deve ter havido esse caso, pois até agora já transcorreu uma infinidade deles. Se o equilíbrio fosse possível, já deveria ter acontecido. E, se esse estado atual existiu, então também existiu o que o produziu e o anterior a este. Disso resulta que ele também já existiu uma segunda e uma terceira vez e assim por diante, e que também existirá uma segunda e uma terceira vez, infinitas vezes, para frente e para trás. Isso significa que todo devir movimenta-se na repetição de um determinado número de estados completamente iguais. Por certo, tudo o que é possível não pode ser entregue à cabeça humana para que o pense: porém, sob todas as circunstâncias, o estado atual é um dos possíveis, independentemente da nossa capacidade ou incapacidade de avaliar o possível, pois ele é real. Sendo assim, poderíamos dizer: será que todos os estados reais deveriam ter tido estados iguais, supondo-se que o número dos casos não seja infinito e que no decorrer de um tempo infinito deva ter aparecido apenas um número finito? Pois, calculando-se retrospectivamente a partir de qualquer momento, pode-se dizer que sempre transcorreu uma infinidade? A paralisação das forças e seu equilíbrio é um caso em que se pode pensar: porém, ele não aconteceu e, por conseguinte, o número das possibilidades é maior do que o das realidades. O fato de nada igual retornar não poderia ser explicado pelo acaso, mas apenas por uma intencionalidade colocada na essência da força: pois, supondo-se uma massa gigantesca de casos, a obtenção ocasional de um lance igual é mais provável do que a não-igualdade absoluta.

    Do valor do "devir". - Se o movimento do mundo tivesse um estado final, então ele haveria de ter sido alcançado. O único fato fundamental é, porém, o de que ele não tem nenhum estado final: toda a filosofia ou hipótese científica (por exemplo, a do mecanicismo) em que um tal estado se torna necessário é refutada tão somente pelos fatos... Procuro uma concepção de mundo que faça justiça a esses fatos: o devir deve ser explicado sem que se tome refúgio em tais intenções finais: o devir há de aparecer como justificado em cada momento (ou não depreciável: o que é a mesma coisa); não se pode tornar justificado o presente pelo futuro, ou o passado pelo presente. A "necessidade" não na forma de uma potestade da totalidade, abrangente, dominante, ou na de um primeiro motor; ainda menos como necessária para condicionar algo valioso. Para tanto, é necessário negar uma consciência total do devir, negar um "Deus", para não submeter o acontecer ao ponto de vista de um ser que sente em comunhão, que sabe em comunhão e que, todavia, nada quer: "Deus" é inútil se não se quer algo, e, por outro lado, estabelece-se com isso uma soma de desprazer e de ilogicidade que rebaixaria o valor total do "devir": felizmente, falta um tal poder somador (- um Deus condutor e supervisor, um "sensório da totalidade" e "espírito do todo" - seria a maior objeção contra o ser [Sein]).
    Mais rigorosamente: não se pode admitir nada que é em geral [Seiendes] - porque então o devir perde o seu valor e aparece, pura e simplesmente, como sem sentido e supérfluo.
    Consequentemente, há de perguntar-se: como a ilusão do que é [Seienden] pôde surgir (houve de poder surgir); 
    do mesmo modo: como são desvalorizados todos os juízos de valor que repousam sobre a hipótese de que há o que é [Seiendes].
   Com isso, porém, reconhece-se que essa hipótese do que é [Seienden] é a fonte de toda a difamação do mundo.
    "o mundo melhor, o mundo verdadeiro, o mundo do além, a coisa em si"
1. O devir não tem nenhum estado final, não desemboca em um "ser" ["Sein"].
2. O devir não é nenhum estado de aparência; talvez o mundo que é seja uma aparência.
3. O devir é de valor igual em cada momento: a soma de seu valor permanece igual a si mesma: expresso de outra maneira: ele não tem valor absolutamente nenhum, pois falta algo segundo o que ele fosse mensurável e em relação a que a palavra "valor" tivesse sentido.
    O valor total do mundo não é depreciável, consequentemente o pessimismo filosófico pertence às coisas cômicas.

                                                                         F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

            Anterior: A Causalidade em Nietzsche (3)
            Apresentação: A Causalidade em Nietzsche (Apresentação)         

Nenhum comentário:

Postar um comentário