sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A Causalidade em Nietzsche (5)

    A interpretação de um acontecer como: ou fazer ou sofrer - portanto, cada fazer como correspondendo a um sofrer - quer dizer: cada alteração, cada tornar-se outro, pressupõe um autor e algo em que é "alterado".

    História psicológica do conceito "sujeito". O corpo, a coisa, o "todo" construído pelo olho desperta a diferenciação entre um fazer e um que faz; o que faz, a causa do fazer, cada vez concebido com maior acuidade, deixou, por fim, como resultado, o "sujeito".

    Nosso mau costume de tomar como essência um símbolo da memória, uma fórmula abreviada, e, finalmente, tomá-lo como causa, por exemplo, dizer do relâmpago: "ele brilha". Ou a palavrinha "eu". Estabelecer uma espécie de perspectiva no ver, por sua vez, como causa do próprio ver: esse foi o passe de mágica na invenção do "sujeito", do "eu"!

A ordem temporal invertida
    O "mundo externo" atua sobre nós: seu efeito é telegrafado ao cérebro, onde é preparado, elaborado e reconduzido à sua causa. Em seguida, a causa é projetada e somente então o factum nos chega à consciência. Isso significa que o mundo dos fenômenos aparece apenas como causa, depois que "esta" atua e que o efeito é elaborado. Isso significa que estamos sempre invertendo a ordem do acontecimento. Enquanto "eu" estou vendo, aquilo que vejo já é algo distinto. O mesmo ocorre com a dor.

    "Sujeito", "objeto", "predicado" - essas separações foram feitas e agora recobrem, como esquemas, todos os fatos que aparecem. A falsa observação fundamental é a de que creio que sou eu quem faz algo, quem sofre algo, quem "tem" algo, quem "tem" uma propriedade.

    Em cada juízo finca-se a crença inteira, plena, profunda em sujeito e predicado ou em causa e efeito (como a afirmação de que cada efeito seja atividade e de que cada atividade pressuponha um agente); e esta última crença é até um caso particular da primeira, de modo que resta como crença fundamental o seguinte: há sujeitos, tudo o que acontece comporta-se de modo predicativo em relação a algum sujeito.
    Observo algo e procuro uma razão para esse algo: isso quer dizer originalmente: procuro uma intenção nisso, e, antes de tudo, alguém que tenha uma intenção, [procuro] um sujeito, um agente: todo acontecer é um fazer - outrora via-se em todo acontecer intenções, esse é o nosso hábito mais antigo. O animal também o possui? Não está ele, como ser vivo, entregue à interpretação de acordo consigo? - A pergunta "por que?" é sempre a pergunta pela causa finalis, por um "para que?" Não temos nada de um "sentido da causa efficiens": aqui Hume tem razão, o hábito (mas não só o do indivíduo!) faz-nos esperar que um certo evento, frequentemente observado, siga um outro: além disso, nada! O que nos dá a extraordinária firmeza da crença na causalidade não é o grande hábito da sequência de eventos, mas sim a nossa incapacidade de interpretar um acontecer de outra maneira a não ser como um acontecer a partir de intenções. Essa é a crença no vivente e pensante como o único que produz efeitos - a crença na vontade, na intenção -, essa é a crença em que todo acontecer seja um fazer, em que todo fazer pressuponha um agente; essa é a crença no "sujeito". Não haveria de ser essa crença no conceito de sujeito e predicado uma grande tolice?
    Pergunta: a intenção é causa de um acontecer? Ou isso é também ilusão? Não é ela o acontecer mesmo?

                                                               F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

            Anterior: A Causalidade em Nietzsche (4)
            Apresentação: A Causalidade em Nietzsche (Apresentação)  

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