segunda-feira, 16 de março de 2015

A Causalidade em Nietzsche (10)

    - A maior fabulação é aquela do conhecimento. Gostar-se-ia de saber como as coisas em si são constituídas: mas veja, não há nenhumas coisas em si! E mesmo que houvesse um em si, um incondicionado, então, justamente por isso, ele não poderia ser conhecido! Algo incondicionado não pode ser conhecido: senão justamente não seria incondicionado! Conhecer, todavia, é sempre "colocar-se em uma condição para com alguma coisa" - -; um tal conhecedor quer que aquilo que queira conhecer não lhe diga respeito em nada; e que o mesmo algo não diga respeito a ninguém em geral: no que, primeiramente, se dá uma contradição, a saber, no querer-conhecer e no exigir que nada deva dizer-lhe respeito (então, para que conhecer!), e, em segundo lugar, porque algo, que não diz respeito a ninguém em nada, absolutamente não é, e, portanto, também não pode ser conhecido. - Conhecer quer dizer "colocar-se em uma condição em relação a algo": sentir-se condicionado por algo e entre nós - - é, portanto, sob todas as circunstâncias, um estabelecer, designar, tornar-se consciente de condições (não um sondar as essências [Wesen], coisas, "em-si"). 

    Uma "coisa em si" é tão absurda quanto um "sentido em si", um "significado em si". Não há nenhum "fato em si", mas antes um sentido há de sempre ser primeiramente intrometido para que um fato possa haver.
    O "o que é isso?" é um estabelecimento de sentido visto a partir de algo outro. A "essência" ["Essenz"], a "essencialidade" ["Wesenheit"], é algo de perspectivo e já pressupõe uma multiplicidade. No fundo, jaz sempre "o que é isso para mim?" (para nós, para tudo que vive etc.).
    Uma coisa seria designada se e somente se todos os seres [Wesen] nela tivessem questionado o seu "o que é isto?", questionado e respondido. Posto que faltasse um único ser [Wesen], com suas próprias relações e perspectivas em relação a todas as coisas, a coisa permaneceria sempre ainda não "definida".
    Em resumo: a essência [Wesen] de uma coisa é também somente uma opinião sobre a "coisa". Ou antes: o "isto vale" é o "isto é" propriamente dito, o único "isto é"
    Não cabe perguntar: "quem interpreta?", mas sim se o interpretar mesmo tem existência (mas não como um "ser": como um processo, um devir) como uma forma da vontade de poder, como um afeto.
    O surgimento das "coisas" é, pura e simplesmente, a obra daquele que representa, que pensa, que quer, que inventa. O conceito "coisa", ele mesmo, tanto quanto todas as propriedades. - Mesmo "o sujeito" é algo criado dessa maneira, uma "coisa", como todas as outras: uma simplificação para designar como tal a força que estabelece, inventa, pensa, em contraposição a todo estabelecer, inventar e mesmo pensar, tomados isoladamente. Portanto, designar a capacidade em contraposição a todo indivíduo: no fundo, o fazer reunido com referência a todo fazer que ainda se pode esperar (o fazer e a probabilidade de um fazer semelhante).

    As propriedades de uma coisa são efeitos sobre outras "coisas": se, pelo pensamento, se abstraem as outras "coisas", então uma coisa não tem propriedades
    isto é, não há nenhuma coisa sem outras coisas
    isto é, não há nenhuma "coisa em si".

                                                                 F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

            Anterior: A Causalidade em Nietzsche (9)
            Apresentação: A Causalidade em Nietzsche (Apresentação)   

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