sexta-feira, 20 de março de 2015

A Causalidade em Nietzsche (11)

    A "coisa em si" é um contrassenso. Se deixo de pensar em todas as relações, em todas as "propriedades", em todas as "atividades" de uma coisa, então não sobra a coisa: pois coisidade é primeiramente simulada de acréscimo por nós, por necessidades lógicas, portanto, para fins de designação, de entendimento (para ligação daquela multiplicidade de relações, propriedades, atividades).

    "Coisas que têm uma constituição em si" - eis aí uma representação dogmática, com a qual se deve romper absolutamente.

    Que as coisas tenham uma contituição em si, completamente abstraída da interpretação e da subjetividade, é uma hipótese inteiramente ociosa: seria pressupor que o interpretar e o ser sujeito não sejam essenciais, que uma coisa desligada de todas as relações ainda seja coisa.
    Pelo contrário: o aparente caráter objetivo das coisas: ele não poderia decorrer simplesmente de uma diferença de grau no interior do subjetivo? - de modo, por exemplo, que o que muda lentamente se apresentasse para nós como durando "objetivamente", como sendo, como "em si"?
    - de modo que o objetivo fosse apenas uma falsa espécie de conceito e uma falsa oposição no interior do subjetivo?

    Toda unidade é unidade como organização e combinação: em nada diferente de como uma comunidade humana é uma unidade: o contrário, por exemplo, da anarquia atomística; por conseguinte, uma configuração de domínio, que significa um, mas não é um.
    se toda unidade só fosse unidade como organização? Mas a "coisa", na qual acreditamos, é tão somente inventada de acréscimo como fermento para diferentes predicados. Quando a coisa "atua", isso significa que concebemos todas as demais propriedades, que de resto ainda existem aqui, e momentaneamente estão latentes, como causa de que agora uma única propriedade sobressaia: isto é, tomamos a soma de suas propriedades - x - como causa da propriedade x: o que é inteiramente tolo e aloprado!

                                                               F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

            Anterior: A Causalidade em Nietzsche (10)
            Apresentação: A Causalidade em Nietzsche (Apresentação)

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