terça-feira, 24 de março de 2015

A Causalidade em Nietzsche (12)

    A explicação mecanicista do mundo é um ideal: com o mínimo possível, deve-se explicar o máximo possível, ou seja, transpô-lo em fórmulas. Ainda é necessário: negar o espaço vazio; pensar o espaço como algo determinado e limitado; do mesmo modo, pensar o mundo como algo que se repete eternamente.

    O número é nosso grande meio para tornarmos o mundo manejável. Compreendemos na medida em que podemos contar, ou seja, na medida em que se pode perceber uma constância.

    Restaram os conceitos mais úteis: por mais erroneamente que possam ter surgido.

    Das interpretações de mundo que foram tentadas até agora, a mecanicista parece estar em primeiro plano, vitoriosa. Visivelmente, ela tem a boa consciência do lado dela; e nenhuma ciência acredita de verdade em progresso e sucesso, a não ser que eles sejam conquistados com a ajuda de procedimentos mecanicistas. Todos conhecem esses procedimentos: deixam-se fora de jogo a "razão" e os "fins", não importando aonde isso possa levar, mostra-se que, na duração de tempo conveniente, tudo pode decorrer de tudo, e não se esconde um sorriso malicioso quando de novo a "aparente intencionalidade no destino" de uma planta ou de uma gema de ovo é reduzida a pressão e choque: em suma, venera-se de todo o coração - se se permite uma expressão jocosa em um assunto tão sério - o princípio da maior tolice possível. Entrementes, justamente nos espíritos mais seletos que estão nesse movimento, dá-se um pressentimento, uma angústia de conhecer, como se a teoria tivesse um buraco que cedo ou tarde pudesse tornar-se o seu último buraco: refiro-me àquele buraco do qual se assobia quando se está na mais extrema necessidade. Não se pode "explicar" pressão e choque, eles mesmos, não se consegue ficar livre da actio in distans: - perdeu-se a crença no próprio poder explicar e reconhece-se, com cara azeda, que em breve o descrever, e não o explicar, terá poder sobre os físicos, justamente com a interpretação dinâmica de mundo, com sua negação do "espaço vazio", dos átomos de massas ínfimas: no que terá para a dynamis (força) ainda uma qualidade interna -

    O conceito vitorioso, "força", com o qual nossos físicos criaram Deus e o mundo, necessita ainda ser completado: há de ser-lhe atribuído um mundo interno que designo como "vontade de poder", isto é, como insaciável ansiar por mostrar poder; ou emprego, exercício de poder, pulsão criadora etc. Os físicos não se libertarão, a partir de seus princípios, do "efeito à distância": tampouco de uma força de repulsão (ou de atração). Isso não ajuda em nada: há de conceber-se todos os movimentos, todas as "manifestações", todas as leis somente como sintomas de um acontecimento interno, e por fim servir-se da analogia do homem. No animal, é possível derivar da vontade de poder todas as suas pulsões; da mesma maneira, todas as funções da vida orgânica podem ser derivadas dessa única fonte.

    Alguma vez foi constatada uma força? Não, mas efeitos, traduzidos em uma linguagem completamente estranha. A sucessão regular, porém, acostumou-nos tão mal que nós não nos admiramos [wundern] com o que nela há de espantoso [Wunderlich].

    Uma força que não podemos representar é uma palavra vazia e não pode ter nenhum direito de cidadania na ciência: como as chamadas forças de atração e repulsão, puramente mecânicas, que querem fazer o mundo representável para nós, nada mais!

    Pressão e choque são algo indizivelmente tardio, derivado, não original. Isso já pressupõe algo que se entretém e pode pressionar e entrar em choque! Mas a partir de onde se entretém?

                                                                 F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

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            Apresentação: A Causalidade em Nietzsche (Apresentação) 

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