sexta-feira, 27 de março de 2015

A Causalidade em Nietzsche (13)

    Não há nada de imutável na química, isso é somente aparência, um mero preconceito de escola. Nós sempre rebocamos o imutável a partir da metafísica, meus senhores físicos. É completamente ingênuo, lendo-se da superfície, afirmar que o diamante, o grafite e o carvão são idênticos. Por quê? Apenas porque nenhuma perda de substância pode ser constatada pela balança! Ora bem, com isso eles têm algo em comum, mas o trabalho da molécula na transformação, que não podemos ver nem pesar, faz justamente de uma só matéria algo outro - com suas propriedades específicas.

    Contra o átomo físico. Para conceber o mundo havemos de poder calculá-lo; para poder calculá-lo, havemos de ter causas constantes; porque não encontramos na realidade [Wirklichkeit] tais causas constantes, nós as inventamos - os átomos. Essa é a origem da atomística.
    A calculabilidade do mundo, a possibilidade de expressar todo acontecer em fórmulas - é isso realmente um "conceber"? O que, porém, seria concebido em uma música, se tudo o que nela é calculável e pode ser abreviado em fórmulas fosse calculado? - Do mesmo modo, as "causas constantes", as coisas, substâncias, algo "incondicionado", portanto; tudo inventado - o que se conseguiu?

    O conceito mecanicista do movimento é já uma tradução do processo original na língua cifrada do olho e do tato.
    O conceito "átomo", a diferenciação entre uma "sede da força propulsora e ela própria", é uma língua cifrada tomada de nosso mundo lógico-psíquico.
    Não está no poder do nosso arbítrio mudar nosso meio de expressão: é possível conceber em que medida isso é mera semiótica. A exigência de um modo de expressão adequado é insensata: jaz na essência de uma língua, de um meio de expressão, expressar uma mera relação... O conceito "verdade" é um contrassenso... todo o império do "verdadeiro" e "falso" reporta-se apenas a relações entre seres, não ao "em-si"... Insensatez: não há nenhum "ser [Wesen] em si", as relações constituem primeiro os seres, tampouco pode haver um "conhecimento em si"...

    "A sensação de força não pode provir do movimento: sensação, em geral, não pode provir de movimento.
    Também a favor disso só fala uma experiência aparente: em uma substância (cérebro) produz-se sensação por meio de movimento transmitido (estímulo). Mas, produz-se? Estaria, pois, provado que a sensação ainda não existe lá, absolutamente? De modo que seu surgimento haveria de ser concebido como ato de criação do movimento que irrompe? O estado sem sensação dessa substância é só uma hipótese! Nenhuma experiência! - Sensação, portanto, como propriedade da substância: há substâncias sensíveis."
    "Experimentamos de certas substâncias que elas não têm sensação? Não, somente não experimentamos que elas as tenham. É impossível derivar sensação de uma substância não senciente." - Oh, quanta precipitação!

    "Atrair" e "repelir", em sentido puramente mecânico, são uma perfeita ficção: uma palavra. Não podemos imaginar um atrair sem uma intenção. - A vontade de apoderar-se de uma coisa, ou de defender-se de seu poder e de repeli-la - isso "nós compreendemos": essa seria uma interpretação que poderíamos usar.
    Em resumo: o constrangimento psicológico a uma crença na causalidade jaz na impossibilidade de representar um acontecer sem intenções: com o que, naturalmente, nada se diz a respeito de verdade e inverdade (a respeito de uma autorização para uma tal crença). A crença em causae tomba com a crença em "fins" (contra Spinoza e seu causalismo).

                                                                F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

            Anterior: A Causalidade em Nietzsche (12)
            Apresentação: A Causalidade em Nietzsche (Apresentação) 

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