segunda-feira, 30 de março de 2015

A Causalidade em Nietzsche (14)

    Ilusão de que algo seja conhecido onde temos uma fórmula matemática para o acontecer: este é designado, descrito: nada mais!

    Se levo um acontecer regular a uma fórmula, então facilitei, abreviei etc. para mim a designação do fenômeno [Phänomens] em seu todo. Mas não constatei nenhuma "lei", antes propus a questão: de onde provém o fato de que aqui algo se repita? É uma conjetura a de que à formula corresponda um complexo de forças, um desencadear-se-de-forças primeiramente desconhecidas: é mitologia pensar que, aqui, forças obedecem a uma lei, de modo que, como consequência de sua obediência, tenhamos a cada vez o mesmo fenômeno [gleiche Phänomen].

    Acautelo-me de falar de "leis" químicas: isso tem um sabor moral. Trata-se antes de uma verificação absoluta de proporções de poder: o mais fortalecido torna-se senhor do mais fraco, à medida que este não pode impor justamente o seu grau de autonomia, - aqui não há nenhum compadecer-se, nenhuma preservação, ainda menos um respeito a "leis"!

    A sequência imutável de certas manifestações não prova nenhuma "lei", mas sim uma proporção de poder entre duas ou mais forças. Dizer: "mas justamente essa proporção permanece igual a si mesma!" não quer dizer nada, a não se: "uma e mesma força não pode ser também uma outra força". - Não se trata de um seguir-se-ao-outro - mas sim de um um-no-outro, um processo no qual os momentos isolados que se seguem não se condicionam como causas e efeitos...
    A separação do "fazer" em relação ao "que faz", do acontecer em relação a algo que faz acontecer, do processo em relação a um algo que não é processo, mas é substância durável, coisa, corpo, alma etc. - a tentativa de conceber o acontecer como uma espécie de transposição e mudança de posição do "que é" ["Seiendem"], do que permanece: essa velha mitologia firmou a crença em "causa e efeito", depois de ela ter encontrado uma forma fixa nas funções linguístico-gramaticais. - 

    A "regularidade" da sucessão é somente uma expressão imagética como se aqui fosse seguida uma regra: não há nenhum fato. Do mesmo modo a "legalidade". Encontramos uma fórmula para exprimir uma espécie de consequência que sempre retorna: com isso não descobrimos nenhuma "lei", menos ainda uma força que é a causa do retorno das consequências. Que algo aconteça sempre tal e qual  é aqui interpretado como se um ser [Wesen], em consequência de uma obediência a uma lei ou a um legislador, agisse sempre de tal e qual forma: enquanto, por outro lado, esse algo, abstraído da "lei", tivesse liberdade para agir de outra maneira. Mas justamente aquele tal-e-não-de-outra-maneira poderia provir do ser [Wesen] mesmo, que não se portaria assim com respeito somente a uma lei, mas como constituído de tal e qual modo. Isso quer dizer somente: algo não pode ser também algo de outro, não pode fazer ora isso, ora aquilo, nem é livre, nem não livre, mas sim tal e qual. O erro está na intromissão inventada de um sujeito.

    Dois estados se sucedem, um sendo uma causa e o outro um efeito -: é falso. O primeiro estado não tem nada a efetuar, nada efetuou o segundo.
    Trata-se de uma luta de dois elementos desiguais em poder: alcança-se um novo arranjo das forças, sempre segundo a medida de poder de cada um. O segundo estado é algo fundamentalmente diverso do primeiro (não seu "efeito"): o essencial é que os fatores que se encontram em luta saem com outras qualidades de poder.

                                                                F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

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