segunda-feira, 2 de março de 2015

A Causalidade em Nietzsche (6)

   Crítica do conceito "causa". - Não temos absolutamente nenhuma experiência de uma causa; computado psicologicamente, o conceito inteiro nasce da convicção subjetiva de que nós somos a causa, por exemplo, de que o braço se move... Mas isso é um erro: cindimo-nos, o agente do fazer, e fazemos uso desse esquema por toda parte - procuramos um agente para cada acontecer... o que fizemos? Cometemos o mal-entendido de tomar como causa um sentimento de força, uma tensão, uma resistência, um sentimento muscular que já é o começo da ação -: ou compreendemos como causa a vontade de fazer isso ou aquilo porque a ação segue-se a essa vontade -
   "Causa" não acontece, em absoluto: no tocante a alguns casos, em que nos pareceu dada, a partir dos quais a representamos como compreensão do acontecer, está provado o autoengano. Nosso "entendimento de um acontecer" consiste em que um sujeito inventado é responsabilizado pelo fato de que algo tenha acontecido e de como aconteceu. Congregamos no conceito "causa" o nosso sentimento de vontade, o nosso sentimento de "liberdade", o nosso sentimento de responsabilidade e a nossa intenção de um fazer: causa efficiens e finalis são, em sua concepção fundamental, uma e mesma coisa.
    Achávamos que um efeito seria explicado se fosse apontado um estado ao qual já fosse inerente. De fato, inventamos todas as causas segundo o esquema do efeito: conhecemos o último... Inversamente, somos incapazes de predizer de qualquer coisa o que ela "efetiva". A coisa, o sujeito, a vontade, a intenção - tudo é inerente à concepção de "causa". Buscamos coisas para esclarecer por que algo se modificou. Mesmo ainda o átomo é uma tal "coisa" e um "sujeito primordial" acrescentado pelo pensamento...
    Por fim, compreendemos que coisas, consequentemente também átomos, nada efetivam: pois eles não existem absolutamente... Compreendemos que o conceito causalidade é perfeitamente inútil. - A partir de uma sequência necessária de estados não se segue sua relação causal (- quer dizer, o fazer salta sua capacidade efetiva de 1 para 2, para 3, para 4, para 5). Não há causas nem efeitos. Linguisticamente, não sabemos nos libertar deles. Mas isso não tem importância. Se penso o músculo separado de seus "efeitos", então o neguei...
    Em suma: um acontecer não é nem efetivado nem efetivante. Causa é uma capacidade de efetivar inventada de acréscimo ao acontecer...
    A interpretação da causalidade é uma ilusão... Uma "coisa" é a soma de seus efeitos ligados sinteticamente por meio de um conceito, de uma imagem... Na realidade, a ciência esvaziou o conceito causalidade de seu conteúdo e o conservou como uma fórmula-metáfora na qual tornou-se, no fundo, indiferente de qual lado está causa ou efeito. Afirma-se que nos dois complexos de estados (constelações de força) as quantidades de força permanecem iguais.
    A calculabilidade de um acontecer não depende do fato de que uma regra seja seguida, ou uma necessidade seja obedecida, ou uma lei de causalidade seja projetada por nós em cada acontecer: - ela depende do retorno dos casos idênticos.
    Não há, como Kant sugere, um sentido de causalidade. A gente se espanta, se inquieta, quer algo conhecido a que possa ater-se... Logo que, no novo, algo de antigo nos é apontado, ficamos tranquilizados. O pretenso instinto de causalidade é apenas um temor diante do inabitual e a tentativa de descobrir nele algo conhecido - uma procura não por causas, mas pelo conhecido...    

    Se computarmos psicologicamente: o conceito de "causa" é o nosso sentimento de poder do assim chamado querer - nosso conceito de "efeito", a superstição de que o sentimento de poder é o poder mesmo, que mobiliza...
    Um estado, que acompanha um acontecimento e já é um efeito do acontecimento, é projetado como "razão suficiente" do acontecimento
    a relação de tensão de nosso sentimento de poder: o prazer como sentimento de poder: da resistência superada - trata-se de ilusões?
    se retraduzirmos o conceito de "causa" na única esfera que nos é conhecida da qual o retiramos: então não nos é imaginável nenhuma transformação na qual não haja uma vontade de poder.
    A mecânica mostra-nos apenas consequências e, além disso, em imagem (movimento é um discurso imagético).
    A gravitação mesma não possui nenhuma causa mecânica, uma vez que ela é primeiramente o fundamento para consequências mecânicas.
    A vontade de acumulação de força como específica para o fenômeno da vida, para a alimentação, a geração, a herança,
    para sociedade, Estado, hábito, autoridade
    não deveríamos poder supor essa vontade como causa motriz mesmo na química?
    e na ordem cósmica?
   não meramente constância de energia: mas economia maximal do gasto: de tal modo que o querer-vir-a-ser-mais-forte a partir de cada centro de força é a única realidade - não autopreservação, mas apropriação, tornar-se-senhor, vir-a-ser-mais, querer-vir-a-ser-mais-forte.
    O fato de a ciência ser possível deve demonstrar para nós um princípio de causalidade?
    "a partir das mesmas causas, mesmos efeitos":
    "uma lei permanente das coisas"
    "uma ordem invariável"
    porque algo é calculável, ele já é por isso necessário?
    se algo acontece de tal modo e não de outro, não há aí nenhum "princípio", nenhuma "lei", nenhuma "ordem"
    Quanta de força, cuja essência consiste em exercer poder sobre todos os outros quanta de força.
    Na crença na causa e no efeito esquece-se sempre o principal: o próprio acontecimento.
estabelece-se um agente, hipostasiou-se uma vez mais o feito.

    Podemos supor uma aspiração ao poder, sem uma sensação de prazer e desprazer, isto é, sem um sentimento de elevação e de decréscimo de poder?
    o mecanismo é apenas uma linguagem de sinais para o mundo interno de fatos de quanta de vontade combativos e superadores?
    todos os pressupostos do mecanicismo, matéria-prima, átomos, pressão, e impulso, assim como peso não são "fatos em si", mas interpretações com o auxílio de ficções psíquicas.
    a vida como a forma que nos é mais conhecida do ser é especificamente uma vontade de acumulação de força
    : todos os processos da vida tem aqui seu apoio
    : nada quer se conservar, tudo deve ser somado e acumulado
   A vida, como um caso particular: hipótese - a partir daí passar para o caráter conjunto da existência.
    : aspira a um sentimento maximal de poder
    : é essencial uma aspiração a um mais de poder 
    : aspiração não é outra coisa senão aspiração ao poder
   : o que há de mais baixo e mais interior continua sendo essa vontade: a mecânica é uma mera semiótica dessas consequências.

                                                                  F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

            Anterior: A Causalidade em Nietzsche (5)
            Apresentação: A Causalidade em Nietzsche (Apresentação)

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