quinta-feira, 5 de março de 2015

A Causalidade em Nietzsche (7)

    Causa e efeito - "Explicação", dizemos; mas é "descrição" o que nos distingue de estágios anteriores do conhecimento e da ciência. Nós descrevemos melhor - e explicamos tão pouco quanto aqueles que nos precederam. Descobrimos múltiplas sucessões, ali onde o homem e pesquisador ingênuo de culturas anteriores via apenas duas coisas, "causa" e "efeito", como se diz; aperfeiçoamos a imagem do devir, mas não fomos além dessa imagem, não vimos o que há por trás dela. Em cada caso, a série de "causas" se apresenta muito mais completa diante de nós, e podemos inferir: tal e tal coisa têm de suceder antes, para que venha essa outra - mas nada compreendemos com isso. Em todo devir químico, por exemplo, a qualidade aparece como um "milagre", agora como antes, e assim também todo o deslocamento; ninguém "explicou" o empurrão. E como poderíamos explicar? Operamos somente com coisas que não existem, com linhas, superfícies, corpos, átomos, tempos divisíveis, espaços divisíveis - como pode ser possível a explicação, se primeiro tornamos tudo imagem, nossa imagem! Basta considerar a ciência a humanização mais fiel possível das coisas, aprendemos a nos descrever de modo cada vez mais preciso, ao descrever as coisas e sua sucessão. Causa e efeito: essa dualidade não existe provavelmente jamais - na verdade, temos diante de nós um continuum, do qual isolamos algumas partes; assim como percebemos um movimento apenas como pontos isolados, isto é, não o vemos propriamente, mas o inferimos. A forma súbita com que muitos efeitos se destacam nos confunde; mas é uma subitaneidade que existe apenas para nós. Neste segundo de subitaneidade há um número infindável de processos que nos escapam. Um intelecto que visse causa e efeito como continuum, e não, à nossa maneira, como arbitrário esfacelamento e divisão, que enxergasse o fluxo do acontecer - rejeitaria a noção de causa e efeito e negaria qualquer condicionalidade.

    A "ciência" (conforme é exercida hoje) é a tentativa de criar uma linguagem comum de signos para todos os fenômenos, visando à possibilidade de se calcular e, portanto, de dominar a natureza com mais facilidade. Todavia, essa linguagem de signos, que reúne todas as "leis" observadas, não esclarece nada. Ela é apenas uma espécie de descrição extremamente curta (abreviada) do acontecimento.

                                           F. Nietzsche ("A Gaia Ciência" af. 112 e fragmento póstumo) 

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            Apresentação: A Causalidade em Nietzsche (Apresentação)    

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