segunda-feira, 9 de março de 2015

A Causalidade em Nietzsche (8)

    Para o combate do determinismo. - Do fato de que algo se suceda regularmente e de maneira calculável não resulta que isso aconteça necessariamente. Que uma quantidade de força se determine e se comporte em cada caso determinado de um único e mesmo modo, isso não a torna "vontade não livre". A "necessidade mecânica" não é nenhum fato: nós, primeiramente, a intrometemos pela interpretação no acontecer. Nós interpretamos o prestar-se a ser formulado do acontecer como consequência de uma necessidade dominante no acontecer. Mas do fato de que faça algo determinado não se segue, de modo algum, que o faça coagido. A coação não é absolutamente demonstrável nas coisas: a regra só prova que um e mesmo acontecer não é também um outro acontecer. Somente pelo fato de termos intrometido nas coisas, pela interpretação, sujeitos, "agentes", surge a aparência de que todo acontecer é a consequência de uma coerção exercida sobre sujeitos - exercida por quem? Por sua vez, por um "agente". Causa e efeito - um conceito perigoso à medida que se pensa algo que causa e algo sobre o que se atua.

A) A necessidade não é nenhum fato, mas sim uma interpretação.

B) Quando se compreendeu que o "sujeito" não é nada que efetiva, é só uma ficção, então se seguem diversas coisas.
    Somente segundo o modelo do sujeito é que inventamos o caráter de coisa e introduzimos a sua interpretação na confusão das sensações. Se não cremos mais no sujeito efetivante, então também cai a crença em coisas efetivantes, em efeito mútuo, em causa e efeito entre aqueles fenômenos a que chamamos coisas.
    Com isso, naturalmente, cai também o mundo dos átomos efetivantes: cuja suposição sempre ocorreu sob a pressuposição de que se necessita de sujeitos.
    Finalmente, cai também a "coisa em si". Mas compreendemos que o sujeito é fictício. A oposição "coisa em si" e "manifestação" é insustentável; com isso, cai por terra também o conceito de "manifestação".

C) Abandonamos o sujeito efetivante, e assim também abandonaremos o objeto no qual se efetiva. A duração, a igualdade consigo mesmo, o ser não são inerentes nem ao que é chamado de sujeito nem de objeto: são complexos do acontecer, aparentemente duráveis com referência a outros complexos - portanto, por exemplo, por uma diferença no ritmo do acontecer (quietude - movimento, firme -frouxo: todas essas são oposições que não existem em si e pelas quais, de fato, são expressas somente diferenças de graus, que aparecem, em uma certa escala óptica, como oposições. Não há oposições: somente a partir da lógica temos o conceito de oposições - e as transferimos, falsamente, às coisas.

D) Se abandonarmos os conceitos de "sujeito" e "objeto", abandonamos também o de "substância" - e consequentemente também as suas diferentes modificações, por exemplo: "matéria" ["materie"], "espírito" e outros seres hipotéticos, "eternidade e imutabilidade da matéria [Stoff]" etc. Estamos sem a materialidade.

Expresso moralmente: o mundo é falso. Mas, à medida que a moral, ela mesma, é um pedaço desse mundo, então a moral é falsa.
    A vontade de verdade é um tornar firme, um tornar verdadeiro durável, é uma supressão daquele caráter falso, uma reinterpretação do mesmo no ente [no que é, Seiende].
    Verdade, portanto, não é algo que existisse e que se houvesse de encontrar, de descobrir - mas algo que se há de criar e que dá o nome a um processo, mais ainda: a uma vontade de dominação que não tem nenhum fim em si: estabelecer a verdade como um processus in infinitum, um determinar ativo, não um tornar-se consciente de algo que fosse "em si" firme e determinado. Trata-se de uma palavra para a "vontade de poder".
    A vida está fundada na pressuposição de uma crença no durável e no retorno regular: quanto mais poderosa é a vida, tanto mais extenso há de ser o mundo previsível e como que entificado [conformado como o que é, seiend gemachte]. Logicização, racionalização, sistematização como meios auxiliares da vida.
    O homem projeta sua pulsão para a verdade, seu "fim", em um certo sentido, para fora de si, como mundo que é [seiende], como mundo metafísico, como "coisa em si", como mundo já existente [vorhandene].
    Sua necessidade como criador inventa já o mundo no qual trabalha, pressupõe-no: essa pressuposição, "essa crença" na verdade é o seu esteio.

    Todo acontecer, todo movimento, todo devir como um verificar-se de proporções de graus e de força, como uma luta...

    O "bem do indivíduo" é tão imaginário quanto o "bem da espécie": o primeiro não é sacrificado ao último; espécie [Gattung], considerada à distância, é algo tão fluído quanto indivíduo. "Conservação da espécie" [Gattung] é apenas uma consequência do crescimento da espécie [Gattung], isto é, da superação da espécie [Gattung] a caminho de uma espécie [Art] mais forte.

    Tão logo imaginemos alguém que é responsável pelo fato de sermos de tal ou qual maneira etc. (Deus, natureza), tão logo atribuamos a ele, portanto, a nossa existência, nossa felicidade e miséria como intenção, estragamos para nós a inocência do devir. Temos, então, alguém que, por meio de nós e conosco, quer alcançar alguma coisa.

    Que a aparente "finalidade" ("a finalidade superior a toda arte humana") é apenas a consequência daquela vontade de poder que transcorre em todo acontecer -
    que o tornar-se mais forte traz consigo ordenações que parecem semelhantes a um projeto-finalidade - 
    que os fins aparentes não são intencionais; o que acontece é que tão logo a supremacia [Übermacht] sobre um poder [Macht] menor seja alcançada, e o último trabalhe em função do maior, uma ordenação da hierarquia [des Rangs], da organização, há de despertar a aparência de uma ordenação de meio e fim.
    Contra a aparente "necessidade":
    - esta é somente uma expressão para o fato de que uma força não é também algo de outro.
    Contra a aparente "finalidade":
    - esta é somente uma expressão para uma ordenação das esferas de poder e seu jogo articulado.

                                                                  F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

            Anterior: A Causalidade em Nietzsche (7)
            Apresentação: A Causalidade em Nietzsche (Apresentação)    

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