sexta-feira, 13 de março de 2015

A Causalidade em Nietzsche (9)

    A mancha podre do criticismo kantiano tornou-se pouco a pouco visível aos olhos mais grosseiros: Kant não tinha mais direito algum a diferenciar "manifestação" e "coisa em si" - ele havia se privado do direito de ainda continuar nessa velha e habitual maneira de diferenciar, à medida que indeferiu, como ilícita, a conclusão, a partir da manifestação, de uma causa da manifestação - segundo sua concepção do conceito de causalidade e de sua validade puramente-intrafenomenal: tal concepção, por outro lado, já pressupõe aquela diferenciação, como se a "coisa em si" não fosse apenas deduzida, mas sim dada.

    É evidente que nem coisas em si podem estar umas com as outras na relação de causa e efeito nem é empregável no interior de uma filosofia que crê em coisas em si e em manifestações. Os erros de Kant - ... De fato, o conceito de "causa e efeito", computado psicologicamente, decorre somente de uma maneira de pensar que, sempre e por toda a parte, crê que uma vontade atua sobre outra - que só acredita em ser vivo e, no fundo, somente em "almas" (e não em coisas). Na visão de mundo mecanicista (que é lógica, como também o é sua aplicação a espaço e tempo) aquele conceito reduz-se à fórmula matemática, mas antes, porém, designado, assinalado.

                                                                  F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

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            Apresentação: A Causalidade em Nietzsche (Apresentação)

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