quinta-feira, 2 de abril de 2015

A Causalidade em Nietzsche (15)

Quanta de poder - Crítica do mecanicismo 

    Afastemos aqui os dois conceitos populares, "necessidade" e "lei": o primeiro estabelece no mundo uma falsa coerção; o segundo uma falsa liberdade. "As coisas" não se comportam regularmente, não se comportam segundo uma regra: não há coisa alguma (- isso é uma ficção), elas também não se comportam de maneira alguma sob uma coerção da necessidade. Não se obedece aqui: pois o fato de algo ser tal como é, tão forte, tão fraco, não é a consequência de uma obediência ou de uma regra ou de uma coerção...
    O grau de resistência e o grau de superpoder - é disso que se trata em todo acontecimento: se nós, para o nosso uso doméstico do cálculo, sabemos expressar isso em fórmulas "legais", tanto melhor para nós! Mas não estabelecemos nenhuma moralidade no mundo com o fato de fingirmos que elas são obedientes -
    Não há nenhuma lei: cada poder retira a cada instante a sua derradeira consequência. A calculabilidade baseia-se precisamente no fato de que não há nenhum mezzo termine.
    Um quantum de poder é designado pelo efeito que exerce e ao qual ele resiste. Falta a adiaforia: que seria em si pensável. É essencial uma vontade de violentação, assim como se proteger contra as violentações. Não autoconservação; cada átomo atua em direção ao ser como um todo - o ser todo é alijado pelo pensamento, quando se elimina essa irradiação das vontades de poder. Por isso, eu o denomino um quantum "vontade de poder": com isso, expressa-se o caráter que não pode ser eliminado da ordem mecânica, sem eliminar a si mesmo.
    Uma tradução desse mundo de efeitos em um mundo visível - um mundo para os olhos - é o conceito de "movimento". Aqui está sempre subentendido que algo é movido - sempre se pensa nesse contexto, seja na ficção de um conglomerado de átomos, seja mesmo em sua abstração, no átomo dinâmico, em algo que atua. Isto é, não escapamos ainda do hábito para o qual nos desencaminham os sentidos e a linguagem. Isoladamente, sujeito, objeto, um agente, em relação ao ato, o fazer e aquilo que ele faz: não esqueçamos que isso designa uma mera semiótica e nada real. A mecânica como uma doutrina do movimento é já uma tradução na linguagem sensorial do homem.
    
    Nós necessitamos de unidades para podermos calcular: por isso, não se deve supor que haja tais unidades. Nós retiramos os conceito de unidade de nosso conceito de "eu" - nosso mais antigo artigo de fé. Se nós não nos considerássemos unidades, nós nunca teríamos cunhado o conceito "coisa". Agora, relativamente mais tarde, estamos amplamente convencidos de que nossa concepção do conceito de eu não é em nada responsável por uma unidade real. Para conservarmos o mecanismo do mundo teoricamente funcionando, portanto, temos sempre de inserir a cláusula que determina até que ponto conduzimos o mundo com duas ficções: com o conceito do movimento (retirado de nossa linguagem sensorial) e com o conceito do átomo = unidade (proveniente de nossa "experiência" psíquica): ele tem por pressuposto um preconceito sensorial e um preconceito psicológico.
    O mundo mecanicista é imaginado tal como o olho e o tato apenas imaginam um mundo (como "movido"). 
    de tal modo que ele pode ser calculado - que unidades surgem de maneira fictícia 
   de tal modo que unidades causais surgem de maneira fictícia, "coisas" (átomos), cujo efeito permanece constante (- transposição do conceito falso de sujeito para o conceito de átomo).
    Conceito de número
    Conceito de coisa (conceito de sujeito)
    Conceito de atividade (cisão entre ser causa e efeitos)
    Movimento (olho e tato)
    : que todo efeito é movimento
    : que, onde há movimento, algo é movido 
    Portanto, fenomênico é: a imiscuição do conceito de número, do conceito de sujeito, do conceito de movimento: temos nossos olhos, nossa psicologia sempre ainda aí.
    Se eliminarmos esses ingredientes: então não resta nenhuma coisa, mas quanta dinâmicos, em uma relação de tensão com todos os outros quanta dinâmicos: cuja essência consiste em sua relação com todos os outros quanta, em sua "atuação" sobre eles - a vontade de poder, não um ser, não um devir, mas um páthos, é o fato mais elementar, a partir do qual apenas se obtém um devir, um atuar... 
    a mecânica formula manifestações sucessivas, e, além disso, de maneira semiótica, com os meios de expressão sensoriais e psicológicos (que todo efeito é movimento; que onde existe movimento, algo é movido): ela não se refere à força causal... 

                                                                F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

            Anterior: A Causalidade em Nietzsche (14)
            Apresentação: A Causalidade em Nietzsche (Apresentação)    

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