segunda-feira, 6 de abril de 2015

A Causalidade em Nietzsche (16)

    Os físicos acreditam em um "mundo verdadeiro" à sua maneira: uma firme sistematização de átomos igual para todos os seres [Wesen] e com movimentos necessários, - de modo que, para eles, o "mundo aparente" se reduz ao lado acessível a cada ser [Wesen], segundo sua espécie, do ser [Sein] universal e universalmente necessário (acessível e também ainda preparado - feito "subjetivo"). Mas, com isso, enganam-se: o átomo, que postulam, é deduzido a partir da lógica daquele perspectivismo da consciência, - também ele próprio é, portanto, uma ficção subjetiva. Essa imagem de mundo que eles projetam não é, em absoluto, essencialmente distinta da imagem de mundo subjetiva: ela só é construída com sentidos estendidos pelo pensar, mas absolutamente com nossos sentidos... Por fim, sem sabê-lo, omitiram algo da constelação: justamente o necessário perspectivismo, em virtude do qual cada centro de força - e não somente o homem - constrói a partir de si todo o mundo restante, isto é, mede, apalpa, forma pela sua força... Esqueceram de computar essa força que põe perspectivas no "ser verdadeiro" ["wahre Sein"]... Dito na linguagem da escola: o ser-sujeito. Eles acham que este foi "desenvolvido", que veio de acréscimo - Mas o químico ainda o usa: tal é o ser-específico que determina o agir e reagir de tal e qual maneira, sempre de acordo.
    O perspectivismo é só uma forma complexa de especificidade. - Meu modo de ver é que cada corpo específico anseia por tornar-se senhor de todo espaço, por estender sua força (- sua vontade de poder:) e repelir tudo que obsta à sua expansão. Mas ele se depara continuamente com o mesmo  ansiar de outros corpos e termina por arranjar-se ("unificar-se") com aqueles que lhe são aparentados o bastante: - assim eles conspiram, então, juntos, pelo poder. E o processo segue adiante...

    Também no reino do inorgânico, um átomo de força só considera a sua vizinhança: as forças que estão longe se compensam. Aqui está fincado o núcleo do perspectivo, e o porquê de um ser [Wesen] vivo ser completamente "egoístico".

    Posto que o mundo dispusesse de uma quantidade de força, então é evidente que todo deslocamento de poder para qualquer lugar condiciona todo o sistema - portanto, junto com a causalidade de um após o outro dar-se-ia uma dependência de um junto ao outro e de um com o outro.

    Se a essência mais íntima do ser é vontade de poder, se prazer é sempre crescimento do poder, desprazer sempre o sentimento de não resistir e de não poder se tornar senhor: não podemos estabelecer, então, prazer e desprazer como fatos cardinais? A vontade é possível sem essas duas oscilações do sim e do não? Mas quem sente prazer?... Mas quem quer poder?... Perguntas absurdas: se a essência mesma é vontade poderosa e, consequentemente, sentimento de prazer e desprazer. Apesar disso: carece-se dos opostos, das resistências, ou seja, relativamente, das unidades abrangentes... Localizadas ---
    Se A exerce um efeito sobre B, então A só conquista a sua localização na cisão em relação a B.

    A única possibilidade de conservar de pé um sentido para o conceito "Deus" seria considerar Deus não como uma força propulsora, mas sim como um estado-máximo, como uma época... Um ponto no desenvolvimento da vontade de poder, a partir da qual se explicaria tanto o desenvolvimento seguinte quanto o desenvolvimento anterior até ele...
    - Considerada de modo mecanicista, a energia do conjunto do devir permanece constante; considerada economicamente, ela sobe até uma certa altura e desce a partir dela, de novo, num eterno circuito. Essa "vontade de poder" exprime-se na interpretação, na espécie do consumo de força - a transformação da energia em vida e a vida na mais alta potência aparecem, de acordo com isso, como meta. Em diferentes estágios do desenvolvimento, a mesma quantidade de energia significa algo diferente:
    - aquilo que na vida constitui o crescimento é sempre a economia, que sempre economiza e torna a calcular, a qual alcança sempre mais com sempre menos força... Como ideal, o princípio da menor despesa possível...
    - que o mundo não almeja um estado duradouro, isso é a única coisa que está provada. Consequentemente, de pensar-se o estado mais elevado do mundo de modo que ele não seja nenhum estado de equilíbrio...
    - a necessidade absoluta do mesmo acontecer em um curso do mundo, como em todos os outros na eternidade, não é um determinismo a respeito do acontecer, mas apenas a expressão do fato de que o impossível não é possível... que uma determinada força não pode ser nada de outro, a não ser esta determinada força; que ela não se libera de outro modo em uma força-resistência senão de acordo com sua força - acontecer e acontecer-necessariamente são uma tautologia.

                                                                  F. Nietzsche (fragmentos póstumos) 

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