quinta-feira, 9 de abril de 2015

A Causalidade em Nietzsche (17)

    Se o mundo tivesse um fim, ele haveria de já ter sido alcançado. Se houvesse para ele um estado final não intencional, então este haveria de já ter sido, do mesmo modo, alcançado. Se ele fosse capaz, em geral, de um persistir, de um tornar-se petrificado, de um "ser", tivesse ele, em todo o seu devir, somente por um momento, essa capacidade do "ser", então ele teria chegado, mais uma vez, há muito tempo, ao fim do devir, também ao fim do pensar, ao fim do "espírito". O fato do "espírito" como um devir prova que o mundo não tem nenhum fim, nenhum estado final e é incapaz de ser. - O antigo hábito, porém, de em todo acontecimento pensar em fins e de, para o mundo, pensar em um Deus condutor e criador é tão poderoso que, ao pensador, custa esforço não pensar para si próprio a falta de finalidade do mundo, por sua vez, como uma intenção. Nessa inspiração - que, portanto, o mundo intencionalmente se esquiva de um fim e sabe até prevenir artificialmente o cair em um circuito - haverão de incorrer todos aqueles que gostariam de decretar para o mundo a capacidade da eterna novidade, isto é, gostariam de decretar tal coisa com relação a uma força final, determinada, imutavelmente da mesma grandeza , tal como é "o mundo" - a capacidade maravilhosa da infinita reconfiguração de suas formas e situações. O mundo, ainda que não tenha mais nenhum Deus, deve ser capaz da força criadora divina, da força de transformação infinita; ele deve proibir-se arbitrariamente de voltar para uma de suas antigas formas; não deve ter tão só a intenção, mas também os meios de guardar-se de toda repetição; deve controlar, portanto, em cada momento, cada um de seus movimentos para evitar fins, estados finais, repetições - e todas as demais consequências de um tal modo imperdoável e louco de pensar e querer. Esse é sempre ainda o velho modo religioso de pensar e querer, uma espécie de nostalgia de acreditar que em qualquer parte o mundo é igual ao velho Deus, querido, infinito, criador ilimitado - que em alguma parte, todavia, "o velho Deus ainda viva" - aquela nostalgia de Spinoza, que se exprime nas palavras "deus sive natura" [Em latim no original: "Deus ou natureza"] (ele sentiu mesmo "natura sive deus" -). Qual é, pois, o princípio ou fé com o qual se formula, o mais determinadamente, a virada decisiva, a preponderância alcançada agora pelo espírito científico sobre o espírito religioso inventor de deuses? Não é ele: o mundo, como força, não pode ser pensado como ilimitado? Pois ele não pode ser pensado assim - proibimo-nos o conceito de uma força infinita como sendo inconciliável com o conceito "força". Portanto - falta ao mundo também a capacidade para a eterna novidade.

    O princípio da conservação da energia exige o eterno retorno.

    Que uma situação de equilíbrio nunca tenha sido alcançada prova que ela não é possível. Mas, em um espaço indeterminado, haveria de ter sido alcançada. Do mesmo modo em um espaço esférico. A configuração do espaço há de ser a causa do movimento eterno, por fim, de toda "incompleteza".
    Prova de que "força", "repouso", "o permanecer igual a si mesmo" são coisas antagônicas. A medida da força (como grandeza) como fixa; sua essência [Wesen], porém fluida.
    Há que se despedir o "atemporal". Em um momento determinado da força é dada a absoluta condicionalidade de uma nova repartição de todas as suas forças: ela não pode permanecer plácida. A "mudança" pertence intimamente à essência, portanto, também a temporalidade: com o que, porém, mais uma vez, somente a necessidade de mudança é estabelecida conceitualmente.

                                                               F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

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