sábado, 11 de abril de 2015

A Causalidade em Nietzsche (18)

A Nova Concepção de Mundo

    1. O mundo persiste; ele não é nada que se torne, nada que passe. Ou antes: ele torna-se, passa, mas nunca começou a tornar-se e nunca cessou de passar - ele mantém-se em ambos... Vive de si mesmo: seus excrementos são o seu alimento.
    
    2. A hipótese de um mundo criado não deve nos preocupar nem por um momento. O conceito "criar" é hoje completamente indefinível, inexequível; é só uma palavra, ainda, uma palavra rudimentar do tempo da superstição; com uma palavra não se explica nada. A última tentativa de conceber um mundo que começa foi feita há pouco, de variadas maneiras, com ajuda de um procedimento lógico - sobretudo, como é de se adivinhar, com uma intenção teológica dissimulada.
    
    3. Quis-se, há pouco, de várias maneiras, encontrar uma contradição no conceito da infinitude temporal do mundo para trás: encontrou-se essa tal contradição, ao preço, claro, de confundir-se [a] cabeça com o rabo. A partir deste momento, nada pode me impedir de  dizer, contando para trás, "nunca chegarei a um fim": assim como posso contar, a partir do mesmo momento, para a frente, até o infinito. Somente se quisesse cometer o erro - prevenir-me-ei de fazê-lo - de igualar esse correto conceito de regressus in infinitum com um conceito, que não é absolutamente realizável, de um infinito progressus até agora, somente se estabelecesse a direção (para a frente ou para trás) como logicamente indiferente, iria poder agarrar a cabeça, este momento, como sendo o rabo: isso é coisa sua senhor Dühring! ...

    4. Nesse pensamento topei com pensadores anteriores: cada vez ele era determinado por outros pensamentos sub-reptícios (- na maioria das vezes teológicos, em favor do creator spiritus). Se o mundo, em geral, pudesse petrificar-se, secar, finar, tornar-se nada, ou se pudesse alcançar o estado de  equilíbrio, ou se tivesse qualquer fim que encerrasse em si a duração, a imutabilidade, o uma-vez-por-todas (resumindo, dito metafisicamente: se o devir pudesse desembocar no ser ou no nada), então esse  estado haveria de já ter sido alcançado. Mas ele não foi alcançado: donde se segue... Essa é a nossa única certeza, a que temos em mãos para servir de corretivo contra uma grande quantidade de hipóteses de mundo em si possíveis. Se, por exemplo, o mecanicismo não pode escapar da consequência de um estado final, que Thomson deduziu dele, então, com isso, o mecanicismo é refutado.

     5. Se o mundo pode ser pensado como grandeza determinada de força e como número determinado de centros de força - e toda outra representação permanece indeterminada e, consequentemente, inutilizável -, segue-se disso que ele há de perfazer um número de combinações computáveis no grande jogo de dados da sua existência. Em um tempo infinito, cada combinação possível haveria de ser alcançada em qualquer altura por uma vez; mais ainda: ela haveria de ser alcançada infinitas vezes. E então, entre cada "combinação" e seu próximo "retorno", todas as combinações possíveis haveriam de ter decorrido, e cada uma dessas combinações condiciona toda a sequência de combinações na mesma série, e assim seria, com isso, provado, um circuito de séries absolutamente idênticas: o mundo como circuito que já se repetiu com infinita frequência e que joga seu jogo in infinitum. - Essa concepção não é, sem mais, uma concepção mecanicista: pois se ela fosse tal, então não condicionaria um infinito retorno de casos idênticos, mas sim um estado final. Porque o mundo não alcançou esse estado, o mecanicismo há de valer, para nós, como hipótese incompleta e somente provisória.

    Sabeis vós também o que é para mim “o mundo”? Devo mostrá-lo em meu espelho? Este mundo: uma imensidão de força, sem começo, sem fim, uma firme, brônzea grandeza de força, que não se torna maior, não se torna menor, não se consome, só se transforma e, como um todo, é de imutável grandeza, um orçamento doméstico sem gastos e sem perdas, mas, do mesmo modo, sem crescimento, sem ganhos, encerrado pelo “nada” como por seu limite, nada que se desvaneça, nada desperdiçado, nada infinitamente extenso, mas sim, como força determinada, posto em um determinado espaço, não em um lugar que fosse algures “vazio”, antes como força em toda parte, como jogo de forças e ondas de força, ao mesmo tempo uno e vário, acumulando-se aqui e ao mesmo tempo diminuindo acolá, um mar em forças tempestuosas e afluentes em si mesmas, sempre se modificando, sempre refluindo, com anos imensos de retorno, com vazante e montante de suas configurações, expelindo das mais simples às mais complexas, do mais calmo, mais inteiriçado, mais frio ao mais incandescente, mais selvagem, para o que mais contradiz a si mesmo e depois, de novo, da plenitude voltando ao lar do mais simples, a partir do jogo das contradições de volta até o prazer da harmonia, afirmando a si mesmo ainda nessa igualdade de suas vias e anos, abençoando a si mesmo como aquilo que há de voltar eternamente, como um devir que não conhece nenhum tornar-se satisfeito, nenhum fastio, nenhum cansaço -: este meu mundo dionisíaco do criar eternamente a si mesmo, do destruir eternamente a si mesmo, este mundo misterioso da dupla volúpia, este meu “além de bem e mal”, sem fim, se não há um fim na felicidade do círculo, sem vontade, se não há boa vontade no anel que torna a si mesmo – vós quereis um nome para este mundo? Uma solução para todos os seus enigmas? Uma luz também para vós, ó mais esconsos, mais fortes, mais desassombrados, mais ínsitos à meia-noite? Este mundo é a vontade de podere nada além disso! E também vós mesmos sois essa vontade de poder – e nada além disso!

                                                                 F. Nietzsche (fragmentos póstumos)

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