segunda-feira, 13 de abril de 2015

A Causalidade em Nietzsche (Final)

    Os físicos se encontram agora em uma posição unânime junto com os metafísicos quanto ao fato de que nós vivemos em um mundo da ilusão: felizes por não se ter mais a necessidade de ajustar as contas com um Deus quanto a isto, com um Deus de cuja "veracidade" se poderia chegar a ter pensamentos por demais estranhos. O elemento perspectivístico do mundo vai a uma dimensão tão profunda quanto acede hoje a nossa "compreensão" do mundo; e eu ousaria ainda estabelecê-lo lá onde o homem pode de maneira justa se abstrair da compreensão - tenho em vista lá onde os metafísicos estabelecem o reino do que aparentemente aponta para a consciência de si mesmo, para o que é compreensível para si mesmo, isto é, no pensamento. O fato de o número ser uma forma perspectivística, assim como o tempo e o espaço; o fato de nós não abrigarmos nem "uma alma", nem "duas almas" em nosso peito; o fato de os "indivíduos" não se deixarem mais deter como os "átomos" materiais, a não ser para a ação e o uso doméstico do pensar, e terem se volatilizado em um nada (ou em uma "fórmula"); o fato de nada vivo e morto poder ser adicionado conjuntamente, de dois conceitos serem falsos, de não haver três faculdades da alma, de "sujeito" e "objeto", "ativo" e "passivo", "causa" e "efeito" serem sempre apenas formas perspectivísticas, em suma, de a alma, o número, o tempo, o espaço, o fundamento, a finalidade - encontrarem-se uns com os outros e caírem uns com os outros. Supondo, porém, então, que não somos tão estultos assim, a ponto de avaliar a verdade, nesse caso o X, de maneira mais elevada do que a aparência; supondo que estamos decididos a viver - então não queremos permanecer insatisfeitos com esse caráter aparente das coisas e apenas insistir no fato de que ninguém permanece parado em relação a qualquer pensamento velado na apresentação dessa perspectividade: - algo com o que de fato quase todos os filósofos até aqui se depararam, pois eles tinham todos pensamentos velados e amavam suas "verdades" - naturalmente: nós precisamos levantar aqui o problema da veracidade: supondo que vivemos em consequência do erro, o que pode ser aí, afinal, a "vontade de verdade"? - Ela não precisaria ser uma "vontade de morte"? - Será que a aspiração dos filósofos e dos homens de ciência não seria talvez um sintoma de uma vida degradada e definhante, uma espécie de enfado da vida por parte da própria vida? Quaeritur [em latim no original: "a questão está lançada"]: e se poderia ficar aqui efetivamente pensativo.

                                                                 F. Nietzsche (fragmento póstumo)

Links - Anterior: A Causalidade em Nietzsche (18)
            Apresentação: A Causalidade em Nietzsche (Apresentação)   

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