sábado, 18 de abril de 2015

"Ensaio Sobre a Cegueira" - Uma Crítica

A crítica abaixo é a segunda parte de um trabalho sobre o livro de Saramago que entreguei no curso de filosofia (a primeira é apenas o resumo da obra). Ao terminar de escrever essa crítica sobre o livro achei que ficou bastante boa para compartilhar por aqui seguindo a fórmula do Prof. Clóvis de Barros Filho o qual admiro muito e o tenho como grande inspirador: “se você vai ter que conviver com você mesmo até o fim da sua vida, é bom que se encante com o que faz”.
  
Boa leitura! 

Sentado em um restaurante pouco antes de escrever o “Ensaio Sobre a Cegueira”, a pergunta que passou por acaso pela cabeça de Saramago e que então lhe renderia um livro inteiro foi: “e se nós fôssemos todos cegos?” sendo que a resposta também já lhe viria imediatamente: “mas nós estamos todos cegos!”. Ao retratar ambientes onde todos estão cegos, o “Ensaio Sobre a Cegueira” é uma obra que mostra assim a deficiência e o vazio dos fundamentos éticos que elaboramos com o intuito de mostrarem-se efetivos para todas as situações cotidianas. Quando estamos cegos, não vemos ao outro, é necessário, portanto, confiar no outro, e nessa confiança necessária acabamos forçosamente por ter de virar nossa percepção primeiramente para nós mesmos. Ao ter de confiar no outro antes é necessário esclarecer dentro de si próprio o que se seria capaz de fazer sabendo que o outro está incapacitado de reagir como poderia e então na consciência disso poder também se precaver de possíveis atos maldosos por parte dos outros contra nós. Mais ainda, na trama de Saramago, quase todos ali (com exceção de uma mulher) estão cegos; ali cegos se relacionam com cegos, cegos buscam novas formas de poderem confiar um no outro, e de assegurarem tal confiança da melhor forma que puderem.

Em meio a esse cenário desolador há a mulher do médico, a única que não cegou, a única que vê num mundo de cegos, apenas muito depois ela conta ao seu grupo que enxerga, mas antes na quarentena tem de ficar calada, pois se todos na sua volta soubessem que ela via certamente seria cobiçada pela sua capacidade para ter de servir e ajudar a todos consumindo-a até a exaustão (e provando que não necessariamente “em terra de cego quem tem olho é rei”). A mulher do médico por enxergar em um mundo onde todos já estão cegos e onde todos já sabem que todos estão cegos, acaba por testemunhar cenas que revelam a fragilidade do ser humano nas suas múltiplas facetas, seja no seu questionamento e descaso pela higiene e pela estética própria, seja pelas suas condutas íntimas que agora perdem a vergonha, seja pelas condutas indecorosas em relação ao próximo, etc; a mulher do médico vendo essa realidade e não podendo fazer nada em relação a ela (pois caso contrário revelaria que vê e seria cobiçada por todos talvez até a morte) revela em sua figura talvez o grau máximo e a tensão da discrepância de visões sobre a realidade que cada um pode ter e, portanto, da perda total de uma possibilidade em constituir uma ética mais efetiva em prol de uma coletividade. Ainda sobre a mulher do médico, há uma passagem no livro que para mim foi a mais espetacular e quero relatar aqui: quando a mulher está na igreja com seu marido e todos na sua volta estão cegos além de todas as imagens da igreja estarem pintadas de branco na altura dos olhos e também todas as estátuas de santos incluindo o próprio Cristo estarem com vendas brancas nos olhos ela finalmente diz ao seu marido: “cada vez irei vendo menos, mesmo que não perca a vista tornar-me-ei mais e mais cega cada dia porque não terei quem me veja", sobre essa passagem que fala por si só não há o que comentar acerca da extrema veracidade, terror e beleza artística que expressa.

Em um mundo onde todos estão cegos como o autor retrata vão se revelando indelevelmente os afetos e as condutas oprimidas da natureza humana, afetos e condutas que antes devido aos olhos poderem enxergar os outros parecem que “não precisavam” enxergar ao seu próprio possuidor. Nesse sentido, Saramago nos denuncia e alerta com essa magnífica obra que se não estamos todos cegos para ver o outro, estamos sim todos cegos para ver a nós mesmos. Cuidamos dos outros, não cuidamos de nós mesmos, fiscalizamos os outros, não fiscalizamos a nós mesmos, somos capazes de tecer o exame mais completo sobre tudo em relação ao outro e ditar uma por uma as correções que o outro deve fazer, mas é interessante perceber que em relação a nós mesmos parece sempre salutar o cultivo da mais completa e insana cegueira. Em um mundo onde atualmente cada vez mais se fala em espiritualidade, onde sempre “o outro” parece estar em primeiro plano e não raro vemos nesse quadro uma desenfreada tentativa de controle e previsão sobre a conduta e o destino da vida alheia para o alívio momentâneo de angústias próprias, também parece haver, por outro lado, cada vez mais uma crescente falta de um olhar, um cuidado e um cultivo de si, e é exatamente por esse ângulo que Saramago flagra em seu texto o desespero do ser humano quando tem de se ver sozinho em um mundo que a todo o instante mostra seu potencial em nos deter e nos fazer retornar o olhar para o fundo de nós mesmos constatando inesgotavelmente a solidão de nossa singularidade, o recôndito último onde somente lá se finca o princípio fundamental da liberdade.   

                                                                  Philip G. Mayer                                                  


Um comentário:

  1. Gostei de sua visão sobre a obra Philip, "Ensaio Sobre a Cegueira" é inesgotável, pois sempre que refletimos sobre essa obra temos uma nova reflexão. Obra atemporal, pois se aplica cada vez mais aos nossos dias.

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